Posso escrever para ter
O teu rosto posto abaixo
Desta mesa.
Posso gritar palavras sem falar
Fazer-te sentir no texto
Toda a certeza.
Mas eu não quero mais
Escrever com o pretexto
De haver uma vela acesa.
Não te quero a sentir nada
Quero-te a não sentir nada,
A ver a estrada parada da vida,
Essa outra história repetida
Vezes sem conta...
Vê: a consciência estava na montra;
Agora está partida.
E ela está algures na estrada,
Por aí, à solta, noutros braços.
Os deuses morreram todos,
Há demasiadas pegadas
E poucos passos.
E ninguém sabe onde
Fica o final.
Perdeu-se o fim, paciência,
Ninguém o esconde,
Está em todos essa total
Consciência.
quinta-feira, 19 de abril de 2007
sexta-feira, 13 de abril de 2007
Palavra que o Mundo Encerra
São palavras além das palavras
que palavras exprimem
as palavras mal escutadas.
Palavras que com palavras rimem
as palavas acabadas.
Palavaras que palavras admirem,
estas palavras caladas,
por palavras enterradas
nas palavras em que vivem.
Palavra silenciada
pela palavra ouvida
na palavra anuncida
à partida.
Palavras de terra e de paixão
palavra que o mundo encerra
na sua vasta e inútil compreensão
das palavras em guerra.
Por
Olavo Pinto
às
22:18
0
comentários
Artigos Relacionados:
Dever relativizado
As confusões que nos possam assolar o espírito (que apesar de tudo não é o adjectivo que descreva alguém que padece de confusão, embora que para ela lhe pareça de facto assolador) são matéria adepta da guerra e do amor que vive em tudo.
Acima de tudo isso existe um desejo de perfeição, a idealização característica indispensável à sobrevivência da alma. Quem não deseja mais que o que tem acaba por se sentir vazio.
A ambição que corrompe e não olha a meios para atingir os fins, mais preocupante que a mera incongruência moral, quebra por vezes a linearidade e objectividade espácio-temporal dos objectivos - e é altamente prejudicial.
A ambição não deve contradizer as possibilidades que o mundo real me vai apresentando, em consonância com aquilo que eu sou e aquilo em que me torno, a cada segundo, com a conexão com o anterior e com as reais opções que fazemos para nós... Não nos devemos basear em possibilidades abstractas que possam conflituar com as possibilidades reais segundo a lei da matéria. Para algo poder morrer tem de primeiro nascer, a nascer temos de acreditar que morre.
Vencer um medo não é nunca ter tido esse medo. Temer pela primeira vez é diferente de temer de novo. Apesar da atractiva cíclicidade dos estados de espírito e da (pré)destinação a que o Homem muitas vezes se agarra, a linearidade dos nossos passos caracteriza o novo Homem que luta contra as realidades aparentemente estáticas e seguras, o conforto das certezas, quer nas ideias quer na matéria.
No homem como na humanidade a luta constante entre a paz e a guerra, o amor e paixão, deve ser tomada como indispensável e salutar ao progresso que nos é facultado pela consciência – racionalização das reacções (expressões) do instinto à percepção – alteração contínua da experiência de existir socialmente, relativização do que é apresentado como certo, repartição do que é total à vista e constituído à visão microscópica da razão – da mesma forma que eu e tu somos o mesmo sendo diferentes, assim o e uma acção, uma ideia, um facto...
Por
Olavo Pinto
às
22:15
0
comentários
Artigos Relacionados:
sexta-feira, 23 de março de 2007
Em águas outras
Tu estiveste um dia aqui sentada
E eu agora em pé olho esta rocha
E cheiro o aroma da primavera
Que se sente quase em nada
Da tua proporção.
Visto o teu olhar para sentir
A segurança nesta água
Mas a terra que tenho na boca
Não me deixa pedir
Mais do que o que o imediato
Deixou a boiar de ti.
Talvez um dia venha a perder o medo
De ir ao fundo
Largar o medo que tenho
De ir ao fundo.
Por
Olavo Pinto
às
18:38
0
comentários
Artigos Relacionados:
Acaso ou o poema estrangeiro
Que procuras entre os escombros?
tu que passeias pela borda,
rente à gente,
depois da chuva,
pelo sol que vai olhando cada coisa.
Que encontraste?
diz-me! que força encontraste
em cada coisa que em ti pensas que vive?
Que sonhos tiveste
que te fizeram acreditar tanto
no pouco que és,
no pouco que vês
e no pouco que fazes ver?
Eu não te invejo,
não,
o meu coração
bate como ontem
e os meus olhos continuam
presos na mesma direcção.
***
O que é que comeste ao almoço
que te fez não querer jantar?
Isto são perguntas para ti,
amor vivido pelas sombras,
paixão perdida nos caminhos
de outras vontades,
crucifixo hirto de certos modos de experimentar
o tactear do rosto,
fechado e posto
a público pelas vozes nunca soltas.
Onde moras agora
que já não precisas desta rua
e desta casa?
Agora nem casa precisas,
sentes-te segura pelo mundo,
forte e protectora dos teus pares,
reciprocamente alinhados,
a emuralhar de grinaldas
o escuro desta morte
e desta razão pura lógica,
orgulhosa, da maléfica realidade
e consequência de existir
e de ter alma.
***
Vivemos no tempo
dos argumentos.
Os factos são notícia,
são as pegadas,
que os argumentos sempre deformam ou encobrem.
As causas são passos
Que mal se ouvem.
E os teus olhos,
onde estão agora?
Eles vão voltar, brevemente,
no próximo ciclo,
nos teus lábios por nascer!
Já nasceram. Feliz?
Por
Olavo Pinto
às
18:37
0
comentários
Artigos Relacionados:
segunda-feira, 19 de março de 2007
A criança com a espingarda
Dispara.
E o mundo nada guarda,
Nada busca, nunca para.
O voo cai no chão
Estrondoso,
E ninguém ouve o som,
O mesmo, gasto, silencioso.
E o gesto na manhã
É preguiçoso,
A esperança é vã,
A força é sã.
Pretensioso
Avança, dispara, aguarda.
A criança com a espingarda.
Por
Olavo Pinto
às
00:20
0
comentários
Artigos Relacionados:
