E a face delimitada pelas paredes
E pelos sorrisos que a luz tinha
E tu permaneces inteira e fechada
Longe da verdade e do mundo
E nestes versos de suicídio
Existencialismo para além de nós
Fumo um cigarro e ouço
Todos os passos a serem dados
sábado, 20 de dezembro de 2008
Não mais
Leva a máquina fotográfica para tirar fotografias
Mas para que queres tu tirar fotografias?
Para te remoeres insípido contra o tempo
Ajudando novo tempo a ser passado contra ele mesmo
Como um espelho em que já não te reflectes
Num passado que (como tudo) deixaste escapar?
Já a tua mãe dizia que não sabias guardar nada,
Nem um segredo. Talvez saibas guardar um segredo,
Porque os segredos nem são coisa nenhuma.
Não te sabes é guardar a ti, perdes-te com facilidade
Empurrado por memórias de um vapor que tu turva
Enquanto ferves o teu sangue onde cozinhas
A tua própria insatisfação com o que vês
Nunca gostas do que vês pois não?
Gostas sim do que imaginas.
Ah, nem do que imagino eu gosto.
Não vale a pena perderes tempo comigo.
Perdi-me.
Deixei de existir.
Pega num papel e escreve.
Não escreverei mais,
A inquietação do porvir
Nada mais me deve!
E os gritos imortais,
De punção sublime,
Presunção de crime!
Apanágios banais!
Inspiração leve.
E o espírito a rir,
Não mais!
Por
Olavo Pinto
às
18:56
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008
É preciso estar completamente desprovido da vontade para se ser poeta.
Por
Olavo Pinto
às
01:51
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terça-feira, 7 de outubro de 2008
Estou calmo, agora
Aquecendo os meus ossos junto do aquecedor eléctrico
(Já não se fazem fogueiras, como antigamente…)
Como torradas com manteiga
Bebo leite com mel
Estou calmo e sei que a vida é minha
Estou calmo e até sinto indiferença
Leve dor a que era ontem
Arrefeceu agora e só aqueço os meus ossos
Que afinal nunca doeram
Cai chuva
Mas é lá fora
Mas não deixa de cair chuva
Mesmo sendo lá fora
E estando eu dentro de uma casa
A chuva lá fora
Molha o meu olhar cá dentro
Secando a pouco e pouco o que me dói
O que eu sei que dói e eu sei porquê
O que eu sei que há cá dentro
Por nunca ter existido lá fora
Vivemos tão próximos de nós
Que nem nos apercebemos
De tão distantes que estamos da vida
Por viver tanto a vida
Não nos apercebemos de que não a vivemos
E no fim tudo o que dela recordamos
Foi o que afinal nunca vivemos
O que nunca quisemos mastigar
Tudo o que deixamos na borda do prato
Como um desperdício pelos outros
Senta-te e não te mexas
De que serve mexeres-te
Se tudo o que tu desejas é no fundo tudo o que consegues imaginar
Como podes tu desejar o que não imaginas?
Isso não é desejar, é mandar embora o aquecedor eléctrico
Para, no frio, desejares friamente um não-sei-quê que te aqueça
Senta-te no chão, estende-te ao comprido
Só o calor que está dentro de ti sentes confortável
(E no fundo não é nem calor nem frio)
Tudo o resto são queimaduras de fogos que não imaginas
Voz: Ana Rita Bastos
1 de Março de 2005
Por
Olavo Pinto
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01:14
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domingo, 24 de agosto de 2008
A RUA IX
Sem mentira, menti
Atirei ao lago dourado do fim
Guardando aqui
Neste instante
A memória galopante em mim
E ela esvoaça rasgando a pele
Assemelha-se demais à realidade
Para lhe chamar-mos sonho
E é um gigante medonho
Cheio de carisma e de verdade
Enquanto a vida segue e a repele
E a afasta ou na tentativa
Se arrasta, morta e viva
E tu continuas emoldurada
Dourada
A face presente e passada
O aclamado tudo-nada
Mas tudo perde o seu rosto
O seu cheiro
O seu tacto
E do momento eu nada aprendo
Fico só… intacto
O teu tudo ficou mudo
Deixo-te partir e eu aprendo
Tudo desaparece
Desconstrução de que sou cúmplice
E fico só, que a mim me tenho um no presente,
Que o passado tem distâncias mal medidas
E o futuro são memórias doutras vidas
Não era nada disto que eu queria ter escrito
Foi tão mais belo na minha cabeça
Desculpem-me
Por
Olavo Pinto
às
21:30
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sexta-feira, 4 de julho de 2008
Por mais voltas que dê acabo sempre por não atingir a verdade. Mas eu vou ousar tentar! A paixão, conjunto de circunstâncias, desde o mínimo movimento do nosso dedo mindinho às duas horas antes de ela aparecer, à reacção química que ocorre no cerébro à casualidade da caneta cair ao chão com o nosso nervosismo. Não é mais do que o que é: nada. Circunstância. Mera acção num espaço e num tempo. Nada mais. Não há diferença entre uma paixão e um carregamento de palha ir caindo à medida que a carroça avança.
Já o sentido eu atribuímos às coisas é nulo e não muda o rumo ou os factos da realidade. Muda a forma como os vemos e uma ou outra reacção. Mas nada deixa de existir na sua forma mais pura.
Algures em 2007
Por
Olavo Pinto
às
16:48
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