domingo, 24 de agosto de 2008

A RUA IX

Sem mentira, menti
Atirei ao lago dourado do fim
Guardando aqui
Neste instante
A memória galopante em mim

E ela esvoaça rasgando a pele
Assemelha-se demais à realidade
Para lhe chamar-mos sonho
E é um gigante medonho
Cheio de carisma e de verdade
Enquanto a vida segue e a repele
E a afasta ou na tentativa
Se arrasta, morta e viva

E tu continuas emoldurada
Dourada
A face presente e passada
O aclamado tudo-nada

Mas tudo perde o seu rosto
O seu cheiro
O seu tacto
E do momento eu nada aprendo
Fico só… intacto

O teu tudo ficou mudo
Deixo-te partir e eu aprendo
Tudo desaparece
Desconstrução de que sou cúmplice
E fico só, que a mim me tenho um no presente,
Que o passado tem distâncias mal medidas
E o futuro são memórias doutras vidas

Não era nada disto que eu queria ter escrito
Foi tão mais belo na minha cabeça
Desculpem-me

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Não. Nem aqui sou verdadeiro. Estranha forma de me criar, escondendo-me. Nada do que está escrito é verdadeiro, é essa a verdade. E não é por não se tocar a mão ou não se olhar no fundo dos olhos, ou por haver sempre uma distância entre o que acontece cá dentro e o que é escrito pela caneta não ser tão rápida como o pensamento ou não ter a ínfima parte da tinta que tem o sentimento. Não! Nada disso. Nós somos mentira.
Por mais voltas que dê acabo sempre por não atingir a verdade. Mas eu vou ousar tentar! A paixão, conjunto de circunstâncias, desde o mínimo movimento do nosso dedo mindinho às duas horas antes de ela aparecer, à reacção química que ocorre no cerébro à casualidade da caneta cair ao chão com o nosso nervosismo. Não é mais do que o que é: nada. Circunstância. Mera acção num espaço e num tempo. Nada mais. Não há diferença entre uma paixão e um carregamento de palha ir caindo à medida que a carroça avança.
Já o sentido eu atribuímos às coisas é nulo e não muda o rumo ou os factos da realidade. Muda a forma como os vemos e uma ou outra reacção. Mas nada deixa de existir na sua forma mais pura.

Algures em 2007

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Poema Semicerrado II

Vida. indisposição.
Imagem de marca,
Física imaginação
Que farta.

Estás com problemas contigo mesmo.
Hedonismo.
Alienação.
«Puxo o autoclismo(…)
Baixo a tampa da sanita»* 
Não tenho a solução

E eu, autor que cita
Nem assim me distancio.
Enquanto escrevo choro e rio
Da vida. indisposição que fica.


*referência com excerto da acção pp. 116 e 117 na 3ª Edição da tradução portuguesa de Menos Que Zero de Bret Easton Ellis pela editora Teorema.

Poema semicerrado I

Que dia é hoje?
Que horas são?
As promessas, onde estão?
Porque é que a minha alma foge,
Abandona o corpo na berma?
Sinto o vento mais frio.
Que dia é hoje?
Semicerro os olhos
Espelho da acção poética
E a vida, incompreensível, patética,
Está para além do vidro
Semitransparente.
Fugi, como a minha alma
Se ausenta do corpo, eu
Do corpo me ausentei
E fiz da mente poesia:
Cauda semântica da  palavra-chave
Que nada abre...
Espermatozóide infecundo da acção
Encurralado entre dois espelhos
Frente a frente.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

A Cabeça da Ana

Não foi mais profundo.
Não é nítida esta frase!
São perspectivas
Mais ou menos
Percebes?

Carregamos a cabeça
Como se não fosse parte do nosso corpo,
Quando não a utilizamos.
Percebes?

Mais ou menos.
São perspectivas.
Nunca é nítida uma frase
Não foi mais fundo que isto.

E quando utilizamos a cabeça
Como se ela fizesse parte do nosso corpo,
Como um braço que se estende mais comprido
Sem nunca tocar em nenhum rosto.

Assim seria o fim

Não tivesse perguntado e saberia
Certo como a minha existência
Anula todo o sabor da experiência
Perfeita na sinuosa filosofia

Antes amasse eu as tuas mamas

Procuro na perfeita redondeza omitida
A verdade da vida

Professo o teu ventre e confesso
A palavra nunca lida

Apareces destino ou já me encontro
Onde cavaste o aconchego de mim.
Procuro, ofegante e absorto
O cálculo certo para cada fim.

Assim seria o fim se não houvesse
Outra dimensão em cada olhar
Se nada neste mundo mais trouxesse
Que outra onda se espera do mar?

E as palavras são só palavras nunca olhares
E as ondas são só ares de outros mares
Tu és só a sonda de um mesmo mundo
És o respirar absorvido no meu fundo.

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