segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Ser e impossível

Como tu vieste a ser
Essa voz pura iluminada
Antes do amanhecer
Entre o vazio e o nada

Procuraste entre a porta
Encontrar vestígios ou pegadas
E encontraste a verdade morta
Estimaste o escudo e a estrada

O escuro nunca foi de facto
A alma que tu espelhavas
No suor no sorriso e no tacto
Hora em que tu mostravas

À luz acidentalmente a tua sombra
E ficaste plácida e imperecível
No rasto insólito e incrível
O deus morto pela sua obra

Não quero com isto te descobrir
Do manto negro invisível
Na negrura de todo o existir
Brandura do tecer passível
De um ser não ser e descobrir
O existir de um ser impossível

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A Rua VII

O que fizeste para não seres vista
Quanto pagaste ao tempo para ele te ter
Deixado passar entre as horas
E visitar a perfeita corrente que liga
A sequência do que acontece
Para além dos olhares indiscretos
Que espreitam entre as brechas
Das nuvens
O que deste em troca desta arte
Vida repetida a cada toque que forma
Um arrasto no ar como uma caneta de luz
A pintar na transparência do teu olhar
A vitória do inconsequente
Como tornaste o teu mundo mais mágico
Que o meu que recriei de cinzas e passados
Mais que a vontade e o desejo soubeste
Impor como rainha do universo na tua mão
A direcção dos astros de cada ponto
Que se vêem com o cerrar de olhos
Com os quais tu dimensionas o que existe
Como passaste a barreira do pensável
Com essa calma de quem diz eu não sei nada
E absorves cada pedaço do que passa a teu lado
Constróis a razão do que se mexe e depois pensas
Com esse teu ar pensativo e abstraído
No tempo que demora a se formar
Cada criatura em união neste presente
Em que tu criatura única e irrepetível
Fazes de tua o que te rodeia um mero quadro
Que sem ti era a inpronuncíavel negação
Da existência

Não há nada que eu possa querer dizer
Quando tu mesma não sabes o que dizer
Sobre esta vida que se espalha a teus pés
E eu não encontro mais razões
Que o que o meu olhar me tem para dar

Não digas nem uma frase ao meu ouvido
Só a tua presença é o destruir imediato
Do meu sentido
A tua procura
É o perfeito equilíbrio da minha satisfação
Pois eu não quero ter de reconstruir o mundo
Depois da tua passagem

domingo, 9 de dezembro de 2007

A Estrada V

Procuro-te com o olhar
Depois da luz que ousa entrar pela porta
E num passo indesejado há luar
Que espreita pela janela
Que devia estar fechada

Dá-me o teu ritmo
A tua dança
A tua voz e a tua criança
O rasto do puro e íntimo
Que se desvanece na crença
De que o mundo é o fim último
E que a vida morre antes da esperança

Onde encontraremos a verdade
Que não procuramos sem ser com a vontade
Porque desejamos a ausência e o mistério
E naufragamos a cada pedaço do império
Que construímos no círculo que nos rodeia
E no círculo que somos e que deixa morrer
Pedaço triste pedaço de sabor que deixa arder
Cinza perpétua e unitária dos olhos de Pompeia

Assim te vejo caminhar atravessando aquela porta
Como se de uma parede se tratasse
E o teu reflexo vem de todo o lado e há transtorno
No teu olhar que reencontra o que não sentiu perder
E eu permaneço imóvel e indiferente à escuridão
Que se reúne como um grupo de amigos em meu redor
Calados e de olhos fechados para o céu
Como quem espera a oferenda açucarada
Da convivência elogiosa da recompensa

Eu ainda te sonho
Eu ainda te peço Entra por aí adentro
Por dentro
Deixa o que se passa iluminar o teu passo
No meu espaço
Ao mesmo espaço do compasso
Que rege o teu laço
E eu ainda te agradeço
Todo o volume intacto
De permanência no abstracto
Relacionamento de aguardar com impaciência
O relatar moroso e informal da tua tendência
Para seres fumo em mim
Para te tornares o rumo e o fim
Que se espalha como ar na janela aberta
E que só o vento soube amar na descoberta
De todas as suas virtudes

Agarra o meu braço
Eu espero porque sei o que se espera
E sei que o esperar é uma melodia
Que pode findar a qualquer toque que erre
A nossa concentração emocional

Sei perfeitamente qual é a tua morada
Estás presa entre as vidas e os futuros
Estás arrebatada pela sorte a outros fundos
Perdeste o sentido que te davas a ti e que não tinhas
Essa corajosa exuberância impotente
Ainda te chama ela entre as poeiras do caminho
Como uma rosa que olhas e não colhes
Ou foi definitivo este eclipse como uma morte
Que vem definitiva se mostrar inconclusiva

domingo, 2 de dezembro de 2007

A Rua VI

Batem-se palmas entre a gente
Para a gente que vagueia pelas ruas
Abres a boca e nada mudas
Tudo em si mesmo inteiro permanece
Mas algo se altera na profundidade
Que escapa ao olhar inesperado de quem olha
E a tua mão escapa atrás do teu vestido
E bate na minha como um incidente despido
De importância para o mundo

Mas todo o mundo aí se criou
Aí inesperadamente houve uma voz
Que passou a falar comigo baixinho
Como quem passeia comigo
E vai apontando as coisas que lá não estão
E me fala de ti como se fosses
Algo mais importante que tudo aquilo
Que se pode ver em toda a vida

Deixei de me preocupar com os passos
Que damos entre os restos de expectativas
Nascidas em nós vítimas humanas
Das violações do imaginário
Um começo próprio de um começo
Como tantos começos da nossa vida
Passamos a vida a começar
Porque nunca vai existir um fim
Que valha mais que um bom começo

Mistério chave dos universos
Chave das estrelas e dos mitos
Dos passos e dos cantos
Das vozes e da palavra-acção
Que rouba e dá e foge
Que existe sem mais nada em si só
E é ouvida em qualquer sombra
Ou vazio do tempo e do espaço
O mistério é a chave do corpo
Da mente e do espírito
Do destino e do amor
E do sexo e da esperança
Da vontade e de cada passo de cada dança
Mistério do começo e do fim
Do nevoeiro e da espera vazia
Da tentação e da alegria
Mistério do número e do andar
Do som da campainha
E de todas as formas pra lá da porta
E de todas as vestes que se encobrem
De luz e de falta dela

Maravilha que compõe o mundo
O tentar aceder à lógica aleatória
Da fonte da vida e do existir
Deslumbramento dos sentidos
Veículos irrepetíveis e únicos
“Perder um medo
Não é nunca ter tido esse medo”
E dançamos e procuramos
O fim perfeito o fim
Só aquele em que acabamos de cair
E não esperávamos
Temos tantos fins
Assistimos a tantos começos
E só este decisivo final
Este misterioso final
Que não compreendemos
E o que conhecemos
Vem depois de tudo

Aplauso impresso no mistério
Que compõe todo o processo
Do mundo

Vitória e perda
Da memória destacada pela borda
Da vida

Vastidão imperecível
Recomeço e correcção
Fim inesperado e detestável
Ilusão imperiosa ilusão
Do ser

Coercível perecer
Palavra do fim
Adormecer

Cair do pano
Negrura silenciosa
E dura

Amanhecer pleno
Aurora esplendorosa
E pura

São declamados pelos teus lábios
Nestes sonho irreais e nunca tidos
Engane-se quem pensa que os sábios
Se fazem entender quando são lidos
E as palavras nunca servem a verdade
Nem nunca condizem com os olhos
São vazios de acção e de sonhos
São o fim que não encontra finalidade

Por isso poetiso
Porque há um vazio impreenchível
Porque há uma acção exequível
Que procura a sua forma entre os gestos
E as palavras não são actos, são gostos
São pactos de oposto a oposto
Deixam entre si um grande fosso
De fim e de começo e no teu rosto
São silêncios de perda e de destroço.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A Estrada IV

Este é o teatro sem gestos
O teatro da memória sem factos
A retirada oblíqua da luz
Para o não cair do pano
Mas sim para o cair da escuridão
Que é também um pano

Esta é a poesia atroz
Que se demarca no nosso intento
De escrever o mundo
Como se este tivesse parado
E nós o fotografassemos
Sem espreitar pela objectiva
E no rolo ficasse gravada
A intenção

Este é o caminho que seguimos
Na nossa mente
Para chegar à recordação

Esta é a corda no poço

E nesta estrada vamos
Vamos como quem vai para algum lado
De onde não há recordação de termos partido
E ainda menos a intenção de chegar

A Rua V

Há um vazio que se alastra
Um nada que mais nada se torna
No passar de cada segundo
Tão doce esta imagem de ti
Esta boca parada a olhar para o nada
Que se alastra
O pensamento quieto
De um corpo inquieto
E as recordações a fervilhar
Como quem tenta ouvir atentamente
O que se diz na mesa ao lado
Mas aqui não há mesa nenhuma ao lado
Nem uma mesa tenho à minha frente
Só existe esta cadeira onde eu sou
E me encontro meio erguido entre o ar
Que passa nos meus ouvidos e parece trazer
Memórias de discursos e batalhas
Que se alastram e que se alimentam
Daquilo que eu deixei para trás de mim
Sem me lembrar que nunca nada desaparece
E agora se transformou no que não esperava
Que se transformasse

Tu saíste daqui de repente sem notar
Que eu estava contigo e por ti
E deixas-te-me a boiar nesta aragem
Que corre agora para me levar
À outra margem
Onde tu estás eu sei que estás
Eu sei para onde foste mas não quero
Perseguir-te como ainda hoje a constelação
Do escorpião persegue Oríon.

Parei por entre a gente e fiquei
Surpreendido como nada ocorre
No mundo, tudo é estático
Ninguém mexe nem um dedo
E no entanto tudo parece modificar-se
A um ritmo que não explica bem porquê
Nem parece ter um compasso
Mas os deuses desta rua sabem
Trautear nas suas palavras
Que não têm som aos nossos ouvidos
Mas que as sentimos em vagas de tristeza
E alegria que oferecemos ao momento

Distancia-te do que vês
É ilusão
Nesta rua não ficaram os porquês
Nenhum carteiro os deixou
Aceita a tua existência
É o teu cartão de visita nesta instância
Que se sobrepõe a tudo quanto é
Ou existe para além do que pensamos
Ser a verdadeira identidade deste mundo
São questões já decoradas dos antigos
Que sentiram que não valia a pena
Encontrar além das cortinas a janela
Que no fundo sempre teve fechada para a rua
Onde por vezes um ou outro ousou espreitar
Como uma criança com o medo do sol
Mas fechou-a rapidamente porque a luz
Não deixou perceber muito bem o que iluminava
E nunca ninguém abriu a janela
Por isso o nosso reflexo sempre pareceu maior
Que o que estava para além do vidro

E aqui dentro nesta casa
Brincamos ainda
Crianças que apelidam as cores
Que tocam as formas
E aos cheiros reagem com expressões
Que nunca viram no seu rosto
Mas imaginam que são uma outra coisa
Um centro gravitacional à roda do qual
Tudo o resto existe e que sem eles
O caos se imporia
Como um homícidio de honra.

Nunca se confia numa janela
Ela só sabe cegar os nossos passos
Antes a porta utilizemos para espreitar
Com o próprio corpo
O que se passa no mundo
Ficar distante é arriscado
Tem cuidado
Quando voltares
A abrir uma cortina
E nunca sejas suicida ao ponto
De pensar em abrir a janela
Sai pela porta e desce
Não sejas cobarde
Vivendo o que não sentiste

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