terça-feira, 16 de outubro de 2007

Procura além disso
Pr’além disso
Depois da faixa
Que se encaixa
No teu riso

Por favor agarra isso
Por favor repete isso
Amor em fervor
Insubmisso
Por trás do teu compromisso

Pessoas chocáveis
Minimamente chocáveis
Amáveis impecáveis
Hábeis
Impagáveis…

Está calado!
Faz silêncio
Pré-fabricado
Nos teus olhos fechados
Fechados

***

Quando eu morrer
A noite que vier vai acabar
E eu numa outra noite adormecida
Que não vai ter força pr’acordar
Vou desejar a noite desta vida

quinta-feira, 20 de setembro de 2007


Menos glória na composição
Da nossa memória incorrigível
Somos horas, somos história
Somos o reconhecimento vão
Da verdade inatingível
Somos cobras, pensamento
Obras de encobrimento
Da natureza que não
É mais que o vento.

Passados que nos perseguem
Na nossa luta de existir
E soletramos na aragem
A nossa sabedoria porvir
E no nosso olhar há um mentir
À nossa sede de coragem
Trocamos a boca pela palavra
Deixamos que a razão a abra
Com a verdade à margem.

Por isso somos humanos
Por isso assim nos sentimos
Divergentes do plano
Dos deuses que criamos.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Doses de Humanidade

Pela noite entre o escuro vi chegar
Quando um vento já parado se ouvia
E a lua estava atrás do teu olhar
A ausência que o teu corpo prometia

Então onde está hoje a virtude
Que ontem se espelhava nessa fonte
Onde fui beber toda a verdade
Deixando o mundo além do horizonte

Perderam-se entre escombros e cortinas
As pérolas da razão e da vontade
E as ondas junto a mim são pequeninas
Doses de humanidade

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A Criadora

Criaste um barco de papel,
Mas a água de papel
Não vinha à ondulação fiel,
Nem a chuva de mel
Chegou para mover a embarcação.

Por isso os teus dedos-furacão
Afundaram em pedaços a superfície do chão,
A vaga profundidade.

E trazias guradada
Na lenta certeza da vastidão
Toda a grandeza do nada.

domingo, 15 de julho de 2007


Vida. Encontro. Despedida.
Orla destruída e incapaz.
Morna a face que traz
A lua de sol embebida.

Perseguição. Órion. Céus.
Um. Dois. Teus.
Olhar pela sombra dos véus
A luz fornicada de deus.

Olhos, receptores da arte,
Do espírito e da força
Quente, sangue, e à parte,
Carne perdida, criança.

Vago? Não, nem verdade
Superior à dos olhos.
Olhares são vagos sonhos,
Real só a tarde e a saudade.

E é tarde a parte que compõe
A nossa recordação que esmorece
No canto do quarto que dispõe
Memórias e sonhos de que carece.

Nada.

Vaga? Vagamente são desejos
Do pintar os lábios transformados
em beijos.

E é tudo uma questão do tempo
Que damos ao espaço e do espaço
Que damos ao tempo, um momento
Construído pedaço a pedaço
Que segura o firmamento.

Vida. Sim, no fim é o encontro
Dos milénios mais que mil
Que aqui nos trouxeram ao ponto
Da despedida ser febril,
E não há memoria capaz
De aplaudir este e verso:
Cada frase é universo
E cada sentido o desfaz.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Estava sol
E o teu olhar
Colidia com o meu
A tua cor condizia com a minha
E a tua voz anuía baixinha
O meu requiem para o céu

Parecia um velório improvisado
Entre chávenas de café
E açúcar já um bocado espalhado
Até às bases dos copos
As lajes deste mundo recriado
De sonhos mortos

Ah, sim, os copos estavam no chão
Partidos e repartidos entre as pedras
Ah, sim, caía tão bem o substantivo calçada
Mas era só areia, estávamos num deserto
As pedras que havia eram pedaços finitos
Da infinidade de areia que era menos finita.
Corrijo: imensurável.
As pedras ainda se contavam
Agora os grãos de areia
É que já não seria possível.

O sol brilhava neste velório
Brilhava neste deserto
Brilhava até às pedras
Descalças e tão perto
Do meu pé esperto!
E agora? Em que acreditas?
Da esperteza do pé meditas
E não concluis nada.
Nada, é a conclusão.

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