Menos glória na composição
Da nossa memória incorrigível
Somos horas, somos história
Somos o reconhecimento vão
Da verdade inatingível
Somos cobras, pensamento
Obras de encobrimento
Da natureza que não
É mais que o vento.
Passados que nos perseguem
Na nossa luta de existir
E soletramos na aragem
A nossa sabedoria porvir
E no nosso olhar há um mentir
À nossa sede de coragem
Trocamos a boca pela palavra
Deixamos que a razão a abra
Com a verdade à margem.
Por isso somos humanos
Por isso assim nos sentimos
Divergentes do plano
Dos deuses que criamos.
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
quarta-feira, 19 de setembro de 2007
Doses de Humanidade
Pela noite entre o escuro vi chegar
Quando um vento já parado se ouvia
E a lua estava atrás do teu olhar
A ausência que o teu corpo prometia
Então onde está hoje a virtude
Que ontem se espelhava nessa fonte
Onde fui beber toda a verdade
Deixando o mundo além do horizonte
Perderam-se entre escombros e cortinas
As pérolas da razão e da vontade
E as ondas junto a mim são pequeninas
Doses de humanidade
Por
Olavo Pinto
às
14:53
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segunda-feira, 13 de agosto de 2007
A Criadora
Criaste um barco de papel,
Mas a água de papel
Não vinha à ondulação fiel,
Nem a chuva de mel
Chegou para mover a embarcação.
Por isso os teus dedos-furacão
Afundaram em pedaços a superfície do chão,
A vaga profundidade.
E trazias guradada
Na lenta certeza da vastidão
Toda a grandeza do nada.
Por
Olavo Pinto
às
21:11
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domingo, 15 de julho de 2007

Vida. Encontro. Despedida.
Orla destruída e incapaz.
Morna a face que traz
A lua de sol embebida.
Perseguição. Órion. Céus.
Um. Dois. Teus.
Olhar pela sombra dos véus
A luz fornicada de deus.
Olhos, receptores da arte,
Do espírito e da força
Quente, sangue, e à parte,
Carne perdida, criança.
Vago? Não, nem verdade
Superior à dos olhos.
Olhares são vagos sonhos,
Real só a tarde e a saudade.
E é tarde a parte que compõe
A nossa recordação que esmorece
No canto do quarto que dispõe
Memórias e sonhos de que carece.
Nada.
Vaga? Vagamente são desejos
Do pintar os lábios transformados
em beijos.
E é tudo uma questão do tempo
Que damos ao espaço e do espaço
Que damos ao tempo, um momento
Construído pedaço a pedaço
Que segura o firmamento.
Vida. Sim, no fim é o encontro
Dos milénios mais que mil
Que aqui nos trouxeram ao ponto
Da despedida ser febril,
E não há memoria capaz
De aplaudir este e verso:
Cada frase é universo
E cada sentido o desfaz.
Por
Olavo Pinto
às
18:58
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terça-feira, 26 de junho de 2007
Estava sol
E o teu olhar
Colidia com o meu
A tua cor condizia com a minha
E a tua voz anuía baixinha
O meu requiem para o céu
Parecia um velório improvisado
Entre chávenas de café
E açúcar já um bocado espalhado
Até às bases dos copos
As lajes deste mundo recriado
De sonhos mortos
Ah, sim, os copos estavam no chão
Partidos e repartidos entre as pedras
Ah, sim, caía tão bem o substantivo calçada
Mas era só areia, estávamos num deserto
As pedras que havia eram pedaços finitos
Da infinidade de areia que era menos finita.
Corrijo: imensurável.
As pedras ainda se contavam
Agora os grãos de areia
É que já não seria possível.
O sol brilhava neste velório
Brilhava neste deserto
Brilhava até às pedras
Descalças e tão perto
Do meu pé esperto!
E agora? Em que acreditas?
Da esperteza do pé meditas
E não concluis nada.
Nada, é a conclusão.
Por
Olavo Pinto
às
14:23
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terça-feira, 12 de junho de 2007
Não há razões para crer que nada do que o homem faz na vida seja arte.
Não há razões para supor que o que homem faz na vida seja lógico.
A lógica é pressuposição,
um desejo antigo,
que rouba à vontade dos nossos gestos a verdade.
Que deus é esse que se apelida de Deus?
Deus é um conceito, como se pode crer assim num conceito?
A verdade em si é um conceito
E rezamos à verdade
Quer para a fazer valer, quer para contrariar o seu conceito.
E a Verdade está nas partes onde há verdade.
E a Verdade está ainda mais na não-verdade
Que é também Verdade.
A mentira só aparece no ser humano,
Tudo o resto é verdadeiro.
Por isso tudo o que em Verdade demos à verdade é conseguirmos ver não-verdades e acreditarmos nelas como verdades, e como não-verdades também.
E Deus? deus só existe como Deus em nós,
Tudo o resto é não-deus,
Deus somos nós próprios,
Nada além de nós é deus.
Tudo no resto é um deus maior e sem nome,
Incontestável, porque só o nosso é contestado e tem nome,
Porque pensamos ser maiores do que a Verdade.
E a verdade é que deus é para a mentira
O que não haver deus é para a verdade.
Por
Olavo Pinto
às
23:35
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