segunda-feira, 13 de agosto de 2007

A Criadora

Criaste um barco de papel,
Mas a água de papel
Não vinha à ondulação fiel,
Nem a chuva de mel
Chegou para mover a embarcação.

Por isso os teus dedos-furacão
Afundaram em pedaços a superfície do chão,
A vaga profundidade.

E trazias guradada
Na lenta certeza da vastidão
Toda a grandeza do nada.

domingo, 15 de julho de 2007


Vida. Encontro. Despedida.
Orla destruída e incapaz.
Morna a face que traz
A lua de sol embebida.

Perseguição. Órion. Céus.
Um. Dois. Teus.
Olhar pela sombra dos véus
A luz fornicada de deus.

Olhos, receptores da arte,
Do espírito e da força
Quente, sangue, e à parte,
Carne perdida, criança.

Vago? Não, nem verdade
Superior à dos olhos.
Olhares são vagos sonhos,
Real só a tarde e a saudade.

E é tarde a parte que compõe
A nossa recordação que esmorece
No canto do quarto que dispõe
Memórias e sonhos de que carece.

Nada.

Vaga? Vagamente são desejos
Do pintar os lábios transformados
em beijos.

E é tudo uma questão do tempo
Que damos ao espaço e do espaço
Que damos ao tempo, um momento
Construído pedaço a pedaço
Que segura o firmamento.

Vida. Sim, no fim é o encontro
Dos milénios mais que mil
Que aqui nos trouxeram ao ponto
Da despedida ser febril,
E não há memoria capaz
De aplaudir este e verso:
Cada frase é universo
E cada sentido o desfaz.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Estava sol
E o teu olhar
Colidia com o meu
A tua cor condizia com a minha
E a tua voz anuía baixinha
O meu requiem para o céu

Parecia um velório improvisado
Entre chávenas de café
E açúcar já um bocado espalhado
Até às bases dos copos
As lajes deste mundo recriado
De sonhos mortos

Ah, sim, os copos estavam no chão
Partidos e repartidos entre as pedras
Ah, sim, caía tão bem o substantivo calçada
Mas era só areia, estávamos num deserto
As pedras que havia eram pedaços finitos
Da infinidade de areia que era menos finita.
Corrijo: imensurável.
As pedras ainda se contavam
Agora os grãos de areia
É que já não seria possível.

O sol brilhava neste velório
Brilhava neste deserto
Brilhava até às pedras
Descalças e tão perto
Do meu pé esperto!
E agora? Em que acreditas?
Da esperteza do pé meditas
E não concluis nada.
Nada, é a conclusão.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Não há razões para crer que nada do que o homem faz na vida seja arte.
Não há razões para supor que o que homem faz na vida seja lógico.
A lógica é pressuposição,
um desejo antigo,
que rouba à vontade dos nossos gestos a verdade.

Que deus é esse que se apelida de Deus?
Deus é um conceito, como se pode crer assim num conceito?
A verdade em si é um conceito
E rezamos à verdade
Quer para a fazer valer, quer para contrariar o seu conceito.

E a Verdade está nas partes onde há verdade.
E a Verdade está ainda mais na não-verdade
Que é também Verdade.
A mentira só aparece no ser humano,
Tudo o resto é verdadeiro.
Por isso tudo o que em Verdade demos à verdade é conseguirmos ver não-verdades e acreditarmos nelas como verdades, e como não-verdades também.

E Deus? deus só existe como Deus em nós,
Tudo o resto é não-deus,
Deus somos nós próprios,
Nada além de nós é deus.
Tudo no resto é um deus maior e sem nome,
Incontestável, porque só o nosso é contestado e tem nome,
Porque pensamos ser maiores do que a Verdade.
E a verdade é que deus é para a mentira
O que não haver deus é para a verdade.

Estas palavras erigidas
Sobre as linhas
Em que caminhas
De braço dado com a vida

Não, não
Não a tua vida,
A tua solidão
De várias vidas.

Vê, são passos que nunca deste;
Lê, são os braços que não tocaste
Nem te abraçaram, mas que abraças
Na compaixão das suas desgraças.

O mundo, no fundo, inspiração,
Nem que não seja de o vermos,
É perfeito e solidão
Que se abstrai nos termos
De a vida ser vida, e não
Ser mais que sermos.

Não há festa
Nessa festa
Interior da besta.

Não há festa
Não há festa
Nessa festa que se arrasta
E consome tudo e tudo gasta.
Deixando imaculado o espírito e a arte.

Cuidado, cuidado!
Há marcado lado a lado
Amor e ódio em toda a parte.

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