domingo, 15 de julho de 2007


Vida. Encontro. Despedida.
Orla destruída e incapaz.
Morna a face que traz
A lua de sol embebida.

Perseguição. Órion. Céus.
Um. Dois. Teus.
Olhar pela sombra dos véus
A luz fornicada de deus.

Olhos, receptores da arte,
Do espírito e da força
Quente, sangue, e à parte,
Carne perdida, criança.

Vago? Não, nem verdade
Superior à dos olhos.
Olhares são vagos sonhos,
Real só a tarde e a saudade.

E é tarde a parte que compõe
A nossa recordação que esmorece
No canto do quarto que dispõe
Memórias e sonhos de que carece.

Nada.

Vaga? Vagamente são desejos
Do pintar os lábios transformados
em beijos.

E é tudo uma questão do tempo
Que damos ao espaço e do espaço
Que damos ao tempo, um momento
Construído pedaço a pedaço
Que segura o firmamento.

Vida. Sim, no fim é o encontro
Dos milénios mais que mil
Que aqui nos trouxeram ao ponto
Da despedida ser febril,
E não há memoria capaz
De aplaudir este e verso:
Cada frase é universo
E cada sentido o desfaz.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Estava sol
E o teu olhar
Colidia com o meu
A tua cor condizia com a minha
E a tua voz anuía baixinha
O meu requiem para o céu

Parecia um velório improvisado
Entre chávenas de café
E açúcar já um bocado espalhado
Até às bases dos copos
As lajes deste mundo recriado
De sonhos mortos

Ah, sim, os copos estavam no chão
Partidos e repartidos entre as pedras
Ah, sim, caía tão bem o substantivo calçada
Mas era só areia, estávamos num deserto
As pedras que havia eram pedaços finitos
Da infinidade de areia que era menos finita.
Corrijo: imensurável.
As pedras ainda se contavam
Agora os grãos de areia
É que já não seria possível.

O sol brilhava neste velório
Brilhava neste deserto
Brilhava até às pedras
Descalças e tão perto
Do meu pé esperto!
E agora? Em que acreditas?
Da esperteza do pé meditas
E não concluis nada.
Nada, é a conclusão.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Não há razões para crer que nada do que o homem faz na vida seja arte.
Não há razões para supor que o que homem faz na vida seja lógico.
A lógica é pressuposição,
um desejo antigo,
que rouba à vontade dos nossos gestos a verdade.

Que deus é esse que se apelida de Deus?
Deus é um conceito, como se pode crer assim num conceito?
A verdade em si é um conceito
E rezamos à verdade
Quer para a fazer valer, quer para contrariar o seu conceito.

E a Verdade está nas partes onde há verdade.
E a Verdade está ainda mais na não-verdade
Que é também Verdade.
A mentira só aparece no ser humano,
Tudo o resto é verdadeiro.
Por isso tudo o que em Verdade demos à verdade é conseguirmos ver não-verdades e acreditarmos nelas como verdades, e como não-verdades também.

E Deus? deus só existe como Deus em nós,
Tudo o resto é não-deus,
Deus somos nós próprios,
Nada além de nós é deus.
Tudo no resto é um deus maior e sem nome,
Incontestável, porque só o nosso é contestado e tem nome,
Porque pensamos ser maiores do que a Verdade.
E a verdade é que deus é para a mentira
O que não haver deus é para a verdade.

Estas palavras erigidas
Sobre as linhas
Em que caminhas
De braço dado com a vida

Não, não
Não a tua vida,
A tua solidão
De várias vidas.

Vê, são passos que nunca deste;
Lê, são os braços que não tocaste
Nem te abraçaram, mas que abraças
Na compaixão das suas desgraças.

O mundo, no fundo, inspiração,
Nem que não seja de o vermos,
É perfeito e solidão
Que se abstrai nos termos
De a vida ser vida, e não
Ser mais que sermos.

Não há festa
Nessa festa
Interior da besta.

Não há festa
Não há festa
Nessa festa que se arrasta
E consome tudo e tudo gasta.
Deixando imaculado o espírito e a arte.

Cuidado, cuidado!
Há marcado lado a lado
Amor e ódio em toda a parte.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

I

Amada a tua alma e o teu corpo
desejado como o magnetismo dos astros,
Revela-se na súbita colisão dos lábios
A súbdita implosão do nosso instinto

Convergindo, ao topo perfeito dos teus ombros,
O cume transparente do espírito e da força.
Os teus cabelos, cortinas da razão
lavada no suor dos nossos poros,

Sou teu escudo no teu dorso ancorado,
Colar de pérolas pendente em teu pescoço

que como uma serpente se estrangula nos teus seios
E percorre o teu ventre sibilando
à pele macia e tépida a rudeza
doutros desertos de areias tão paradas.

II

Os teus dedos sulcam a minha carne, desejando
os meus lábios perscrutando a tua pele
nas tuas pernas que escalo lentamente,
Lambendo terra fértil sinto, ouço,
Um vulcão penetrantemente palpitante.

Separo o teu ser até ao centro
E deixo confluir do nosso corpo
A nossa erupção, flamejante e simultânea,
De uma natureza divina e subterrânea.

III

À superfície do teu olhar está espelhado
o amor deste mar em que mergulhas.
No teu arfar ainda o passo desta dança.
A maresia e o suar e a calmaria
e a lava que a teus pés solidifica,

em sorrisos abraçados nasce um dia
E em dois seres um amor fica.

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