terça-feira, 12 de junho de 2007

Não há razões para crer que nada do que o homem faz na vida seja arte.
Não há razões para supor que o que homem faz na vida seja lógico.
A lógica é pressuposição,
um desejo antigo,
que rouba à vontade dos nossos gestos a verdade.

Que deus é esse que se apelida de Deus?
Deus é um conceito, como se pode crer assim num conceito?
A verdade em si é um conceito
E rezamos à verdade
Quer para a fazer valer, quer para contrariar o seu conceito.

E a Verdade está nas partes onde há verdade.
E a Verdade está ainda mais na não-verdade
Que é também Verdade.
A mentira só aparece no ser humano,
Tudo o resto é verdadeiro.
Por isso tudo o que em Verdade demos à verdade é conseguirmos ver não-verdades e acreditarmos nelas como verdades, e como não-verdades também.

E Deus? deus só existe como Deus em nós,
Tudo o resto é não-deus,
Deus somos nós próprios,
Nada além de nós é deus.
Tudo no resto é um deus maior e sem nome,
Incontestável, porque só o nosso é contestado e tem nome,
Porque pensamos ser maiores do que a Verdade.
E a verdade é que deus é para a mentira
O que não haver deus é para a verdade.

Estas palavras erigidas
Sobre as linhas
Em que caminhas
De braço dado com a vida

Não, não
Não a tua vida,
A tua solidão
De várias vidas.

Vê, são passos que nunca deste;
Lê, são os braços que não tocaste
Nem te abraçaram, mas que abraças
Na compaixão das suas desgraças.

O mundo, no fundo, inspiração,
Nem que não seja de o vermos,
É perfeito e solidão
Que se abstrai nos termos
De a vida ser vida, e não
Ser mais que sermos.

Não há festa
Nessa festa
Interior da besta.

Não há festa
Não há festa
Nessa festa que se arrasta
E consome tudo e tudo gasta.
Deixando imaculado o espírito e a arte.

Cuidado, cuidado!
Há marcado lado a lado
Amor e ódio em toda a parte.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

I

Amada a tua alma e o teu corpo
desejado como o magnetismo dos astros,
Revela-se na súbita colisão dos lábios
A súbdita implosão do nosso instinto

Convergindo, ao topo perfeito dos teus ombros,
O cume transparente do espírito e da força.
Os teus cabelos, cortinas da razão
lavada no suor dos nossos poros,

Sou teu escudo no teu dorso ancorado,
Colar de pérolas pendente em teu pescoço

que como uma serpente se estrangula nos teus seios
E percorre o teu ventre sibilando
à pele macia e tépida a rudeza
doutros desertos de areias tão paradas.

II

Os teus dedos sulcam a minha carne, desejando
os meus lábios perscrutando a tua pele
nas tuas pernas que escalo lentamente,
Lambendo terra fértil sinto, ouço,
Um vulcão penetrantemente palpitante.

Separo o teu ser até ao centro
E deixo confluir do nosso corpo
A nossa erupção, flamejante e simultânea,
De uma natureza divina e subterrânea.

III

À superfície do teu olhar está espelhado
o amor deste mar em que mergulhas.
No teu arfar ainda o passo desta dança.
A maresia e o suar e a calmaria
e a lava que a teus pés solidifica,

em sorrisos abraçados nasce um dia
E em dois seres um amor fica.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Caminho onde tu nem sequer vês
Não sonhas comigo nem sequer nos teus pesadelos
Eu estou para lá de onde todas as estradas e caminhos terminam.

Nunca vais querer tentar chegar,
Mas eu espero.
Porque só consegues ser onde estás,
Aqui não serás tu sequer,
Nem sequer tu serias se aqui tentasses chegar,
Por isso tu nunca cá estarás.

Mas quando o teu corpo
Já depois, já mais tarde, depois do sol
Vier por uma linha ao meu encontro,
Susterei o último suspiro de memória,
E serás toda a certeza dessa glória.

Incêndio

Como se pode inspirar a vida
a acontecer por si só?

mágica e brilhante
como ela deveria ser.
Mas não é.
Toda ela vai perdendo o brilho
quando a focamos, quando tentamos
mantê-la brilhante pelo artifício
de manter aceso algo que já devia ter apagado

como uma vela que,
num desespero de manter viva
a sua chama, mesmo depois de queimada
toda a vela em si, deixamos queimar a toalha,
depois a mesa,
depois o carpete,
depois a sala
e as memórias
- mas raramente o mundo.

Então vão-se tomando os dias por noites,
as chamas por necessidades,
o mais pelo mesmo,
o querer por desejo,
a vontade por poder,
o olhar por algo mais que olhar,
as palavras por algo mais que palavras.

E assim se criou aquilo que somos agora.

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