Caminho onde tu nem sequer vês
Não sonhas comigo nem sequer nos teus pesadelos
Eu estou para lá de onde todas as estradas e caminhos terminam.
Nunca vais querer tentar chegar,
Mas eu espero.
Porque só consegues ser onde estás,
Aqui não serás tu sequer,
Nem sequer tu serias se aqui tentasses chegar,
Por isso tu nunca cá estarás.
Mas quando o teu corpo
Já depois, já mais tarde, depois do sol
Vier por uma linha ao meu encontro,
Susterei o último suspiro de memória,
E serás toda a certeza dessa glória.
segunda-feira, 14 de maio de 2007
Incêndio
Como se pode inspirar a vida
a acontecer por si só?
mágica e brilhante
como ela deveria ser.
Mas não é.
Toda ela vai perdendo o brilho
quando a focamos, quando tentamos
mantê-la brilhante pelo artifício
de manter aceso algo que já devia ter apagado
como uma vela que,
num desespero de manter viva
a sua chama, mesmo depois de queimada
toda a vela em si, deixamos queimar a toalha,
depois a mesa,
depois o carpete,
depois a sala
e as memórias
- mas raramente o mundo.
Então vão-se tomando os dias por noites,
as chamas por necessidades,
o mais pelo mesmo,
o querer por desejo,
a vontade por poder,
o olhar por algo mais que olhar,
as palavras por algo mais que palavras.
E assim se criou aquilo que somos agora.
Por
Olavo Pinto
às
19:29
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Teclas
Esse gigante,
Esse tempo...
Firme firmamento
Na incerta gente,
Árvore, folheado lento
Da noite presente.
Por
Olavo Pinto
às
17:15
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Há noites que caem,
Há folhas que murmuram
E vidas que se espraem
Pelos olhares que viram.
Vastidão de começo e despedida,
Incerto sentido da clareza
- E um gigante malhado na certeza,
Vagueia lento em corrida.
Não há palavras como o vento
- Assim as folhas falavam
E as árvores eram o firmamento
Com que sonhavam.
Por
Olavo Pinto
às
17:04
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domingo, 13 de maio de 2007
Cuidado, há ventos que sopram,
Há sinos que dobram;
E sinas legíveis
Em palmas suadas,
De mãos extensíveis
Às palavras escutadas.
Faz o que ouves e o que vês
Faz depois de o teres já feito
No espaço do e se fosse, talvez...,
Só mais tarde era uma vez...,
Por agora é o instante perfeito.
(E sabe tão bem o verso imperfeito
No parapeito
Da tua janela entreaberta
E a lua bela desperta
Para a versificação experta
De cada sujeito)
Sim, o bem e o mal,
Mais o falso ideal
Com o carimbo moral;
Não há herói natural.
O único herói que há
É o tempo, que para já,
Nunca será racional.
Por
Olavo Pinto
às
23:25
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domingo, 29 de abril de 2007
Nunca tive mais do que o que vi,
Não, nunca em mim encontrei
Um pedaço que fosse teu,
Mas guardei
O mistério do teu céu.
O teu rosto é humano
E o teu corpo chama por mim
Assim.
De ano a ano
A fotografia que não tiramos
Está rasgada pelas mãos que não tocaste.
Mas nasceste.
Quanto mistério há nas tuas palavras,
E caso a tua boca abras
Não mais fará sentido
Esse sussurro absorto
Ao olhar acidental do nosso encontro
Neste ar de vago destino
Já morto.
Por
Olavo Pinto
às
23:19
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