quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Festejo, quão mais bela poderia ser
Esta festa que é estar redesenhando.
Que forma de celebrar consegue ter
Mais beleza que o recordar – sonhando?

A onda vaga do passado está encoberta
E não a destinguiria se para trás
Sentisse a vontade da porta aberta
Trespassar, mas em frente, só tu és capaz!

Aclamo a tua voz quente e leve
Que levita ainda em meus ouvidos
O teu cheiro que agora serve
Todos os sentidos sentidos.

(alterna a onda vaga que só espuma
no fim do seu rebentamento nos derruba
e num ciclo de tão bestial e bela bruma
nos agarra de novo com a sua longa luva)

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

imaginar é começar a amar POR a primeira gota de água da última chuva

Vale tanto a pena viver quando cabemos dentro da acção de viver. Vale tanto a pena olhar quando os olhos conseguem ver só o que vêem. Algo caiu de mim no momento em que essa aproximação tua ao que eu considero ser o melhor de mim me multiplicou a cada toque teu. Tenho agora os pés humidamente flamejantes, as luzes do metro passam pelo meu olhar que flutua por cima de quem me olha do banco da frente, e indiferentemente faço parte de toda aquela gente que caminha assim, no mesmo pó e até na mesma direcção, mas no entanto debaixo de um outro céu. Eu não! eu voo a cada passo teu na minha mente, a cada sibilante emitida pela tua boca ao meu ouvido, a cada gesto desenhado e eterno. Amor, o filho real da imaginação, o pleonasmo espelhado ao infinito, a inconsciência mais moralizada que qualquer sistema de normas racionais, a lógica mais ilógica por ter o sabor da incerteza constante da circunstância e do destino oculto e decidido.

O momento em que a primeiro gota de água da última chuva da nossa distância caiu, assim, nesse lugar indeciso, nesse lugar não marcado, acontece toda a magia de não ter acontecido nada, nesse beijo de tantas formas, nesse beijo de mil sabores, nesse beijo perfeito de não existir; mas certo! ah! sim tão certo e esperto porque espera e sabe que vem e que saberá bem, que vem sem adiar, que vem sem esperar, preciso sem contar cada segundo que passa sem passar, porque eu fico e acabo por sair de mim, mas volto num instante porque sei a hora e quero estar presente! Sim, nesse agora, sem demora, esse já que está por vir, esse presente sentir do que será este rir:

esquecimento inesquecível de esquecer.
momento imprescindível ao crescer.
sentimento imperceptível do ser.
movimento invisível ao ver.
pensamento indivisível do querer.


Dá-me as tuas mãos, toma um piano, toca para mim uma melodia qualquer, desde que seja tua e tu a queiras mais que a imobilidade deste meu olhar fixo em ti.

O dia em que me esqueci de te escrever

Era um dia de sol, normal e inalterável, tudo estava mutilado pela calmaria impressionante que se instalava nesta mesma pastelaria em que agora, sentado, fumando e bebendo com a estranheza humana e só humanamente possível deste dia ser igual a todos os outros. Outrora, outra mesma estranheza se instalava entre mim enquanto ser ausente e verossímil por dentro e ser (não-ser) presente e impossível por fora. Toda a acção humana se derramava no meu olhar como raios de sangue nos meus olhos; cada pessoa na sua individualidade se erigia no meu olhar como uma cova funda em redor dos olhos de uma noite desperta. E eu fumava e esperava sem esperar, com a certeza de uma madrugada. As ventoinhas paradas, não arejanto nem o fumo nem os fumadores, o ar condicionado condicionadamente parado não condicionando nada... As vozes e os ruídos simultâneos de ideias e pensamentos e verdades e certezas imperceptíveis e distantes, e instantâneos, como um som de um automóvel (com a verdade total do tempo e do espaço) irracionalizável ao passar a 200km/h por um ouvido atento ao mais pequeno tempo num só espaço. Laranjas, vinhos, maioneses em vitrines que reflectem espaços mais iluminados. Os olhos de uma empregada atrás do balcão, mexendo as mãos com um automatismo impulsionado quase só pelo instinto.

É assim a verdade que se nos apresenta todos os dias, é esta a única realidade das coisas em nosso redor, é neste tipo de espaços e nesta ausência para o que entendemos ser “nós mesmos” que encontramos, lucidamente, a promessa de um início de um nosso ritmo que nos faça saltar daqui para o espaço em que algo que não vemos acontecer, algo maior que todas as pastelarias do mundo (algo mesmo maior que o mundo!), algo que divide o tempo em três, ligando-o, o que nos faz ser existindo e existir para o mundo.


Este dia em que me esqueci de te escrever, o “me” não era eu e o esquecer não foi meu, porque nem a mão era minha. Este dia que te descrevo agora é o único dia que foi meu porque eu não cheguei a ser mais que esse dia, e assim, maior que a pastelaria e o mundo esse dia transbordou do meu interior e foi preenchendo o meu exterior até ao horizonte. Quando fui a dar conta eu estava, eu era, eu cabia todo dentro do dia.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Princesa encantada, por qual dos teus olhos me viste
Quando eu passeava a minha alma no teu jardim?
Ai! Não pensaste nem sentiste, simplesmente sorriste!
Tão calma e segura, abriste caminho para mim.

Oh! Princesa teu coração vacilou incerto e vazio,
Tão modesto e humilde ao entrar no meu terreno
Vasto, mundo baldio, chamuscado, infértil, frio,
Inculto sim, em tudo, à excepção, talvez, do medo.

Abandonada aqui construíste o teu castelo,
Armaste-me cavaleiro num cavalo sem esporas.
Continuei o mesmo e tu do meu orgulho choras
Lágrimas pelo desespero inquietante e belo.

Percebe que eu sou só cavaleiro de um romance,
Espírito, alma que não finda nem muda nem cessa.
Então transforma-se, ama-se sem que nunca se canse,
Se vive também vai morrendo sem glória nem pressa.

Através de teus olhos eu te olho, fundo e grave,
Destacando o sorriso e a tristeza imprecisa.
Sou um espírito no sótão, enterrado na cave,
Minha alma sobrevoa por esse castelo que não pisa
O Chão.
Sou um coração pisado que pesa,
Cansado da armação indefesa.
O corpo ateu, que reza.
O morto teu, Princesa.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Bola

Amor, primeiro a coincidência do olhar, a incidência desse magnetismo semelhante ao dos planetas. Depois vem o rosto, gesticulando a promessa dessa beleza tão insuperável. Seguem-se os gestos, dando rosto a algo nobre e alto com as mãos orquestrando a valsa onde os nossos destinos se cruzaram.
Depois, o mundo cai-nos em cima, os olhos escondem-se, os rostos tapam-se, as mãos têm na sua pele a flôr dos nervos fervilhando, o ambiente da sala sufoca-nos, as vozes são ruído para os sentidos, uma unha a arranhar um tecido é um trovão, o bater de uma mesa contra a outra é um violento acidente de viação, o cair de uma caneta ao chão é forte demais para os tímpanos, e as palavras saem desconexas e voláteis.
Então brincamos, fingimos, fugimos ao assunto para ir ao encontro do riso, “o mundo é uma bola! o mundo é uma bola!” e gira comigo e contigo lá. O desejo? Esse é para quando somos grandes e maiores que o mundo e que os deuses, mas agora aqui somos crianças, o mundo é uma bola e nós cabemos bem nela e ela em nós enquanto bola que é, os deuses riem-se connosco e somos os dois maiores que o tempo.
Depois, a distância não se mede com réguas, uma parede é querermos ser maiores que nós, um amor perdido é um amor não tido, o mundo volta-nos a cair em cima, tentamos pô-lo por baixo e ele volta a rolar nos nossos pés, nós somos grandes, até ao próximo... Amor, primeiro a incidência do olhar, a coincidência do magnetismo, semelhante ao dos planetas. Depois vêm os gestos, dando rosto à promessa dessa beleza tão insuperável. Segue-se o rosto, gesticulando algo nobre e alto com os lábios sibilando o conto onde os nossos destinos se cruzaram.
Depois caimos em cima do mundo, os rostos escondem-se, os olhos tapam-se com as mãos: fervilham os nervos à flôr-da-pele, há no ambiente da sala ruído, as vozes sufocam os sentidos, um trovão é uma unha a arranhar um tecido, um acidente de viação é como duas mesas a baterem uma na outra, os timpanos não percepcionam a caneta que cai no chão, e voláteis ficamos desconexos das palavras.
Então tornamo-nos sérios, procuramos a razão, arranjamos temas para ir ao encontro da memória “o mundo é plano, o mundo é plano...” no qual sobrepomos os nossos planos. O amor? Esse é para quando somos pequenos e frágeis perante o mundo e os deuses, porque agora somos crescidos, o mundo é um plano no qual planeamos o nosso plano e rezamos aos deuses para que nos salvem a tempo.
Depois da distância percorrida notamos que foi no sentido inverso, uma parede intransponível é sermos maiores que a porta, um amor perdido é o que não chegamos a ter, voltamos a cair no mundo, tentamos pô-lo acima de tudo e ele volta a fugir debaixo dos nossos pés tal como os nossos planos, nós somos pequenos, até nunca...

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Esse Agora

Nunca me converto ao que sou.
Vou sempre sucumbindo à tentação
De ser no tempo que passou,
Volvendo levemente com a mão
As páginas da memória, dou
À presença das horas a razão
De se ausentarem quando estou
Entregue à minha eterna submissão.

Vejo o suficiente para saber
Que a gente tecida desta teia,
Sobra do tempo, que sem querer,
Mistura na mesma estreita veia
A ternura e amargura de viver,
E passeia sem dar conta que vagueia,
Pela estrada que tende a anoitecer
A cada pegada apagada na areia.

Nunca serei presente!
Ó passado sublinhado,
Estarei presente, talvez, uma ou outra hora
Entre mim e o que for eu de passado,
Mas nunca, nunca saberei realmente
Distinguir nessa demora
Esse agora pelo tempo compassado.

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