Festejo, quão mais bela poderia ser
Esta festa que é estar redesenhando.
Que forma de celebrar consegue ter
Mais beleza que o recordar – sonhando?
A onda vaga do passado está encoberta
E não a destinguiria se para trás
Sentisse a vontade da porta aberta
Trespassar, mas em frente, só tu és capaz!
Aclamo a tua voz quente e leve
Que levita ainda em meus ouvidos
O teu cheiro que agora serve
Todos os sentidos sentidos.
(alterna a onda vaga que só espuma
no fim do seu rebentamento nos derruba
e num ciclo de tão bestial e bela bruma
nos agarra de novo com a sua longa luva)
quarta-feira, 8 de novembro de 2006
quarta-feira, 1 de novembro de 2006
imaginar é começar a amar POR a primeira gota de água da última chuva
O momento em que a primeiro gota de água da última chuva da nossa distância caiu, assim, nesse lugar indeciso, nesse lugar não marcado, acontece toda a magia de não ter acontecido nada, nesse beijo de tantas formas, nesse beijo de mil sabores, nesse beijo perfeito de não existir; mas certo! ah! sim tão certo e esperto porque espera e sabe que vem e que saberá bem, que vem sem adiar, que vem sem esperar, preciso sem contar cada segundo que passa sem passar, porque eu fico e acabo por sair de mim, mas volto num instante porque sei a hora e quero estar presente! Sim, nesse agora, sem demora, esse já que está por vir, esse presente sentir do que será este rir:
esquecimento inesquecível de esquecer.
momento imprescindível ao crescer.
sentimento imperceptível do ser.
movimento invisível ao ver.
pensamento indivisível do querer.
Dá-me as tuas mãos, toma um piano, toca para mim uma melodia qualquer, desde que seja tua e tu a queiras mais que a imobilidade deste meu olhar fixo em ti.
Por
Olavo Pinto
às
00:57
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O dia em que me esqueci de te escrever
É assim a verdade que se nos apresenta todos os dias, é esta a única realidade das coisas em nosso redor, é neste tipo de espaços e nesta ausência para o que entendemos ser “nós mesmos” que encontramos, lucidamente, a promessa de um início de um nosso ritmo que nos faça saltar daqui para o espaço em que algo que não vemos acontecer, algo maior que todas as pastelarias do mundo (algo mesmo maior que o mundo!), algo que divide o tempo em três, ligando-o, o que nos faz ser existindo e existir para o mundo.
Este dia em que me esqueci de te escrever, o “me” não era eu e o esquecer não foi meu, porque nem a mão era minha. Este dia que te descrevo agora é o único dia que foi meu porque eu não cheguei a ser mais que esse dia, e assim, maior que a pastelaria e o mundo esse dia transbordou do meu interior e foi preenchendo o meu exterior até ao horizonte. Quando fui a dar conta eu estava, eu era, eu cabia todo dentro do dia.
Por
Olavo Pinto
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00:54
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quarta-feira, 25 de outubro de 2006
Princesa encantada, por qual dos teus olhos me viste
Quando eu passeava a minha alma no teu jardim?
Ai! Não pensaste nem sentiste, simplesmente sorriste!
Tão calma e segura, abriste caminho para mim.
Oh! Princesa teu coração vacilou incerto e vazio,
Tão modesto e humilde ao entrar no meu terreno
Vasto, mundo baldio, chamuscado, infértil, frio,
Inculto sim, em tudo, à excepção, talvez, do medo.
Abandonada aqui construíste o teu castelo,
Armaste-me cavaleiro num cavalo sem esporas.
Continuei o mesmo e tu do meu orgulho choras
Lágrimas pelo desespero inquietante e belo.
Percebe que eu sou só cavaleiro de um romance,
Espírito, alma que não finda nem muda nem cessa.
Então transforma-se, ama-se sem que nunca se canse,
Se vive também vai morrendo sem glória nem pressa.
Através de teus olhos eu te olho, fundo e grave,
Destacando o sorriso e a tristeza imprecisa.
Sou um espírito no sótão, enterrado na cave,
Minha alma sobrevoa por esse castelo que não pisa
O Chão.
Sou um coração pisado que pesa,
Cansado da armação indefesa.
O corpo ateu, que reza.
O morto teu, Princesa.
Por
Olavo Pinto
às
23:16
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terça-feira, 24 de outubro de 2006
Bola
Depois, o mundo cai-nos em cima, os olhos escondem-se, os rostos tapam-se, as mãos têm na sua pele a flôr dos nervos fervilhando, o ambiente da sala sufoca-nos, as vozes são ruído para os sentidos, uma unha a arranhar um tecido é um trovão, o bater de uma mesa contra a outra é um violento acidente de viação, o cair de uma caneta ao chão é forte demais para os tímpanos, e as palavras saem desconexas e voláteis.
Então brincamos, fingimos, fugimos ao assunto para ir ao encontro do riso, “o mundo é uma bola! o mundo é uma bola!” e gira comigo e contigo lá. O desejo? Esse é para quando somos grandes e maiores que o mundo e que os deuses, mas agora aqui somos crianças, o mundo é uma bola e nós cabemos bem nela e ela em nós enquanto bola que é, os deuses riem-se connosco e somos os dois maiores que o tempo.
Depois, a distância não se mede com réguas, uma parede é querermos ser maiores que nós, um amor perdido é um amor não tido, o mundo volta-nos a cair em cima, tentamos pô-lo por baixo e ele volta a rolar nos nossos pés, nós somos grandes, até ao próximo... Amor, primeiro a incidência do olhar, a coincidência do magnetismo, semelhante ao dos planetas. Depois vêm os gestos, dando rosto à promessa dessa beleza tão insuperável. Segue-se o rosto, gesticulando algo nobre e alto com os lábios sibilando o conto onde os nossos destinos se cruzaram.
Depois caimos em cima do mundo, os rostos escondem-se, os olhos tapam-se com as mãos: fervilham os nervos à flôr-da-pele, há no ambiente da sala ruído, as vozes sufocam os sentidos, um trovão é uma unha a arranhar um tecido, um acidente de viação é como duas mesas a baterem uma na outra, os timpanos não percepcionam a caneta que cai no chão, e voláteis ficamos desconexos das palavras.
Então tornamo-nos sérios, procuramos a razão, arranjamos temas para ir ao encontro da memória “o mundo é plano, o mundo é plano...” no qual sobrepomos os nossos planos. O amor? Esse é para quando somos pequenos e frágeis perante o mundo e os deuses, porque agora somos crescidos, o mundo é um plano no qual planeamos o nosso plano e rezamos aos deuses para que nos salvem a tempo.
Depois da distância percorrida notamos que foi no sentido inverso, uma parede intransponível é sermos maiores que a porta, um amor perdido é o que não chegamos a ter, voltamos a cair no mundo, tentamos pô-lo acima de tudo e ele volta a fugir debaixo dos nossos pés tal como os nossos planos, nós somos pequenos, até nunca...
Por
Olavo Pinto
às
18:40
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segunda-feira, 23 de outubro de 2006
Esse Agora
Nunca me converto ao que sou.
Vou sempre sucumbindo à tentação
De ser no tempo que passou,
Volvendo levemente com a mão
As páginas da memória, dou
À presença das horas a razão
De se ausentarem quando estou
Entregue à minha eterna submissão.
Vejo o suficiente para saber
Que a gente tecida desta teia,
Sobra do tempo, que sem querer,
Mistura na mesma estreita veia
A ternura e amargura de viver,
E passeia sem dar conta que vagueia,
Pela estrada que tende a anoitecer
A cada pegada apagada na areia.
Nunca serei presente!
Ó passado sublinhado,
Estarei presente, talvez, uma ou outra hora
Entre mim e o que for eu de passado,
Mas nunca, nunca saberei realmente
Distinguir nessa demora
Esse agora pelo tempo compassado.
Por
Olavo Pinto
às
19:50
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