segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Vieste, na tua posante sedução
Pelas linhas afectas da feição,
Perdida nas ruas rectas da razão,
Encontrando a lua distante neste chão.

E eu, criado da vontade e do desejo,
Plácido e estonteado em teu beijo,
Cego pela luz dessa rotina,
Triste pela feliz orla da neblina,
Tentei não te encontrar perto do fim.
Procurei fugir para te encontrar,
Tentei fingir que te encontrava.
E encontrei a fuga que em mim
Só no silêncio da verdade se mostrava.

Procuro, ainda hoje, essa ambição,
De ambicionar mais que esta existência,
Formar no ar castelos de paixão
E ter em mim toda a ciência.

Mas os dados do jogo deste amor
Jogam no prazer de qualquer leito
De nem saber que nada sei, deste meu gosto
Pelo sublime defeito do teu rosto
De crime perfeito.

sábado, 7 de outubro de 2006


O fim da festa,
Que coisa mais triste e nefasta.
A minha alma afasta
A mente, e queima e arrasta
O meu corpo, que quer mas não basta.

Vida. Noite, adormece-me mais uma vez,
Conta-me essa história repetida loucamente,
Essa história sibilante da nossa pequenez
Vangloriando a voz que se esvai humanamente

Fim.

Começo.

Sim.

Reconheço a tua voz.
Paixão. Morte. Motivo.
Colar de pérolas atroz,
Estrangulamento passivo.

Desejo. Fé. Raciocínio.
Meramente vontade
De soerguer a verdade
Ao pôr-do-sol do declínio.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Só a nós cabe

A realidade
Destruída
Reconstrói-se.
Só a nós cabe
Essa ambição.

Falam-nos múrmuros
Rostos tapados
Nossos passos.
Só a nós cabe
Segui-los.

Dizem-nos calmos
Espíritos outros
Nosso Destino.
Só a nós cabe
Tê-lo.

Dançam as mãos
Brincam os olhos
No espaço.
Só a nós cabe
Pousá-los.

(Foto: Fonte da Moura, Forte de S. Neutel, Chaves.)

domingo, 1 de outubro de 2006

O Cheiro Deste Livro Excita-me

Como é que tu adivinhas coisas assim? Ainda estou para descobrir, e acho, convictamente, que vou estar para sempre. Eu e qualquer um. Convicção é a última coisa a nascer, e como eu estou convicto de que não há princípio nem fim, porque estes são establecidos sempre pelos humanos, qualquer "algo" é sempre algo entre aspas, nunca algo em si, sempre aproximado, nunca total, até o mais complexo dos sistemas, algo quase, nunca algo algo. O exemplo, tudo o que eu escrevo, tem princípio e fim porque eu o começo e acabo por parar num ponto qualquer, o que eu quero escrever, sobre qualquer coisa, nunca começou nem vai acabar, porque é, e é a isso que eu tento chegar, sem nunca chegar, tentativas quase inúteis de mostrar que tenho para mostrar o que tenho (e todos podemos ter) de indemostrável aos outros. Por aí se criam (capacidade de síntese do existente, ou seja, fazer caber na consciência uma existência, que de qualquer maneira é sempre maior que a consciência) todas as "disputas" humanas e imperfeitas para consciencializar a experiência (cabendo esta na existência real e nunca totalmente percepcionada pela consciência ou na ideia já pervertida de uma parte incompleta de experiência) que fazem de nós aquilo que nós pensamos ser sós e que nos tornam na maravilhosa criatura social, como esta aparentemente complexa consciência social que nos dá esta experiência e existência social tão surreal quando observada de fora. O quanto os deuses se riem! Eu não falo sozinho.

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Amo-te*

*sujeito a alterações sem aviso prévio.

Sensibilidade como Poder

Porque é preciso parar, por um bocado, de vez em quando, com esta coisa da poesia, estais todos a ficar com uma ideia muito errada de mim! E isso não é grave nem mau, mas de qualquer maneira, e para salvaguardar a sociedade de fazer generalizações estupidamente dignas e verdadeiramente legítimas (sim, porque eu tenho o direito de não gostar de deputados, até posso odiá-los, e isso é bonito, principalmente havendo no universo a hipótese de eu me apaixonar por uma) sobre os poetas sendo eu um. O que é um poeta? Alguém que escreve poemas. Porquê? Porque é sensível. Vamos lá pôr a ideia de sensibilidade em ordem, a sensibilidade não é fraqueza e subjectividade. É poder (e bem objectivo)! Um poder de viver, ver e sentir coisas que não estão , que não existem enquanto factualidade certa e palpável ou lógica, isto é: são imaginação. Fernando Pessoa já fez esse trabalho de explicar o fingimento poético. A sensibilidade poética é objectiva, a partir do momento em que se designa de sensibilidade, porque é um verso, é um poema. E um poema tem, na sua subjectividade, a maior objectividade de todas, porque consegue transmitir aquilo que não é nem nunca foi, ou que está disfarçado de subjectividade, mostrando o que foi por algo impossível ou excessivamente genérico (como por exemplo por uma metáfora). Mas toda essa subjectividade têmo-la nós na nossa mente, quando queremos explicar o inexplicável, sendo o tipo de mecanismo que o poeta usa e transforma no trabalho árduo de objectivar, de focar com uma lente qualquer (as musas, os deuses, o superior, o amor, o que-tu-quiseres-que-seja...), aquilo que é subjectivo e insensível, establecendo assim a sensibilidade como poder.

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