Vazia está a espera
Derramada a vitória
Anoitece a branca quimera
Sorteada a gratuita glória.
Quero acordar
Sem recordação.
Partir, sem ficar
Marcado pela carnação.
Despejo de voz de gesto
De rosto e de nojo.
Desejo o oposto,
A identidade sem pejo.
Já nem uma procura;
A voz está quieta,
Adormecida, está escura,
Calada, refeita em amargura,
Suspensa e perfeita.
Silênciada e pura.
terça-feira, 25 de julho de 2006
em busca de Orion
A Sophia de Mello Breyner Andresen
Dansas em vapor
Pelo calor
De uma chama arrefecida
Escorres por cidades e caminhos
Desaguas no inteiro e puro ninho
No começo de tudo quanto é vida
O azul que te liberta
É a grade da tua verdade
Mas tu vieste segura e encoberta
No manto da humanidade
Liberdade pura e vasta
Concreto o teu percurso
Com o manto que se arrasta
Perseguindo o oposto do universo
Agora olhando cada verso
Se revela o interior mais belo e pleno
Nos teus olhos espelhado o protesto
A teus pés o mar sereno
Por
Olavo Pinto
às
15:16
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segunda-feira, 26 de junho de 2006
Morto
I
Não vou desperdiçar o agrado
Que tenho por certo na melodia
À extensão do certo e absoluto
Sem metade do esplendor do dia
Que interessa a palavra e a promessa
Sem a extensão do brilho do prazer
Vulcão sem erupção
Dançar sem música, olhar sem ver.
Não te vou dizer o que fazer
Nem te pedir que te aproximes
Vens se vieres, caso não venhas
Viverás por esses crimes
II
Ouço uns passos atrás de mim a supor
Pobre vadio, passo a passo, mais perto e sujo
Pede-me um cigarro, “claro!”, e vai com a dor
Que me deixa de pena e de nojo
Sem culpa me desculpo, mas que culpa
Posso eu ter do que não tens e do que vens.
Sinto-me em ti, e eu outro revivo à lupa
A tristeza e o alegre infortúnio que tu tens.
Dou mais um bafo no cigarro e atiro-o para o chão
Olho as luzes, a pedra, e algo de dor não sai
Estou outro, mais próximo. Altruísmo igual à tentação
à inveja à cobiça. Algo da máscara cai.
Imagino em mim outro eu, outra existência,
Revejo o passado e o presente
Tolda-me o olhar a causa e a consequência,
Sento-me exausto nas escadas da mente.
Que força maior há que o individual
Retaliando sem retaliar à voz da gente
Olhar do meio a totalidade social
Olhos de um diferente indiferente.
III
Nasce a tua voz, como nascente
Penetrando funda e grave a minha face
Poluída e inócua pela sombra inerente
À luz bifurcada que aquece.
Continuo, passo a passo
O luar, lá em cima, que nos observa
Com os olhos te trespasso
E o cheiro a tudo, e o nada a erva.
Grave. Parado. De repente um grito
Um suspiro aflito.
Renascendo do mais profundo que existe
Algo de palpável no teu destino
Aí! Aí! Na tua pele que brilha e ris-te
E o teu riso renego e obstino
Depois abro a boca e calo-me, paraliso
Fecho os olhos, viro costas, parto
Tu ficas embebida
Em ti
E eu sigo a vida
Morto.
Por
Olavo Pinto
às
01:53
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Horas de declínio
Horas de declínio
Fazes por vezes o tempo por ti
Fazes por vezes a hora e esqueces o espaço.
Derretido pela dactilografia da minha fisionomia
Tento chega fundo, à alma e ao espírito;
Mas destes dois apenas concluo o seguinte:
Que a alma é o espaço onde tudo cabe, de mais ou de menos;
Que o espírito é o tempo que sempre passa e que sempre fica.
E eu, onde não caibo me meto
E eu onde nada fica eu não passo.
Ó gesto que ficas-te perdido onde não foste gesticulado
Qual é a verdade da tua consequência que não tomou tempo
Onde ficaste gravado sem ter existido?
Perdes-te a consciência na fugacidade de um momento.
O que de ti ficou agudo a pressionar o que já foi?
Aquele que ficou mudo e pelo tudo se dispõe.
Por
Olavo Pinto
às
01:49
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vida
Nesta palavra tão solta de palavra.
Encontra-se.
Vida. Encontro. Despedida.
Nada tem significado.
Aportam. Esvai-se. Nada: é o que é.
Pressa ou rara reduz.
Alma. Espírito. Luz.
Instantes de sílabas.
Vagas estapafúrdias da gratidão.
Terra. Ar. Solidão.
Por
Olavo Pinto
às
01:47
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sexta-feira, 16 de junho de 2006
Constatação
Se não posso ter lugar nessa mesa,
Ao menos todo o espaço!
Cada pedaço da parede e desse chão
É meu! Enquanto a chama está acesa
Eu, eu medonho e triste passo,
Mas cheiro a felicidade e a paixão.
Amante das paredes nuas,
Das ruas amareladas, e amor
Tanto pela vida como pelas sombras…
Erro como um fantasma pelas ruas,
Pela beira da beira do interior
Do que sobra do resto das sobras.
Pelas sombras vividas
Pelas sombras escondidas
Por trás de almas apodrecidas
Quem nega a verdade?
Quem rega a infertilidade
No chão dos fados,
Quem se entrega à totalidade
De olhos fechados?
(Sonhos sonhados
Sonhos completamente sonhados
Vivamente sonhados
Não rezo a deuses
Não falo comigo mesmo
Não tenho um eu
Não procuro nem felicidade
Nem amor
Nem paz
Nem alcançar nada que imagines
Sou sem saber o que é ser
Sou sem ser
Porque sei acordar
Mas vejo-me a adormecer.)
Procuro-me sóbrio, útil e inteligente,
No culto íntimo, lavrado a vertical.
Encontro-me vago, indelével, entre a gente,
Nem me divido em bem e mal.
Nem o meu rosto reconheço,
Apavoro com a minha presença;
Por isso tudo tenho o que mereço:
O tudo, o nada, e a sentença
Respirávelmente lato,
Sinto, sim, sinto!
Vivo, não, minto:
Constato!
Por
Olavo Pinto
às
15:57
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