quarta-feira, 7 de junho de 2006

Fomos os dois cinzas
Antes do momento em que aqui não estamos
Já não sinto a forma que pizas
Nem o perfume que criamos
Até a tua fala congelada
No intervalo do suspiro do fim
Na totalidade desta ferida fechada
Esta cicatriz de ti em mim

Esta cicatriz da partida da tua ausência
Esta doença curada da tua consciência

Restam sobras de restos
Sobram restos de sobras
Os teus olhares e gestos
São só sombras de sombras

Não são mais que sonhos
Estes ventos mudos
São olhares contra olhos
Perderam os escudos

Perderam as armas
Numa guerra sem terra
Neste mar de almas
São o espírito que erra.

domingo, 4 de junho de 2006

Tu, mais nada

O que é mais vasto:
O mar, ou o universo?
Ou o resto do gesto,
Da noite passada.
Cada voz, cada verso;
Um grito, um protesto,
És tu, tu, mais nada.

Buscando o tal mote,
O tal sentido do agora,
Mais fundo que a morte,
Mais leve que a hora.

Onde está o amor que eu tanto queria
O toque da sorte, e da dor que se esvaía?
A promessa da vez sem hora marcada
A peça onde tu e eu... onde está esse dia?

(a noite sorria)

Em ti, em mais nada.

Descalço,
ou pelo menos,
De cordões desapertados,
Caminho no encalço
Dos meus medos,
Nesta sombra dos
minutos expirados.

O que está mais distante:
A loucura ou a madrugada?
Ou a visão incessante,
Da tua imagem dançante.

Estás tu, tu, mais nada.

quarta-feira, 31 de maio de 2006

A alma desapertada!


Pelo passeio dos vencidos
Erro. Olhos profundos, cansado,
Copos vazios, todos bebidos,
E algum do líquido verte,
E o meu corpo, inerte
Vendo o cordão da alma desapertado.

Guardo o que de mim foi
Na força intermitente,
Como néons do passado,
Já cansados do presente.
Os olhos fecham, a mente
Dói.

A alma desapertada!

A alma totalmente desapertada.
A voz rouca, fraca, pouca... irada
Talvez de outra força que vem
Não sei de onde, ou como, não sei nada.
Só sei que por aqui já tudo acaba,
E o fim é o espírito que espírito não tem.

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Estou na espera. Na espera de esperar, que desespera, o ponto do encontro da ironia e do tempo. A afirmação lenta e indelével do espelhamento do espaço. A luta do nada contra o tudo. Força do vazio e do silêncio que na melodia do tempo que esvazia, enche de um poder de querer, cíclico e autónomo do ser, ver: um ver que sabe, na imobilidade, ter a força dos astros, dos deuses, e da pedra, que sabe ser o poder na mão da revolta ou o tropeçar fatal para o abismo, e sempre disfarça inofensiva o rosto irónico, de quem dá ao homem a escolha do carácter, da acção de a apertar na mão e romper a janela do mundo, ou a fatalidade risível de nela se encontrar o fim: o ricochete na parede onde não foi plantada uma janela: o acaso.

quarta-feira, 3 de maio de 2006


Da janela do meu quarto
Vejo um mundo, exterior, infernal,
Velocidades que rompem o asfalto
Fecho os olhos com a janela aberta
(Desperta! Desperta que algo aconteceu
no segundo em que te viras-te para dentro
com a janela aberta.)
Descubro o que deixei a descoberto:
Foi o tempo de nada e do que sou.

Nada do que está exposto importa,
São séculos vazios, preenchidos
Por ecos de heróis, todos vencidos,
Pelo chiar de uma porta bem fechada.

(Um pé se apoia no areal,
algo brilha no seu olhar, frio e fatal.
É o hedonismo que virá e nada evita
levanta-se o lutador, suado, e grita:

“Todo este sangue é o derrame do passado,
que verte para o balde do futuro!”)
Na sombra deste homem, destacado
Surge o mais claro sentido d’obscuro.

Algo adormecido está no brilho
Que não raia na profundeza, prolongada
Fina e lisa linha contínua do caminho,
Que alimenta a força da caminhada.

terça-feira, 2 de maio de 2006


Escrever é a materialidade mais espiritual que existe; mesmo que não escrevas, a mão do cosmos escreve por ti.

(Foto: sim, são nuvens.)

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