Não vou ficar mais uma vez acordado,
Na espera intermitente do descanso.
Gastando, passo a passo, o passado,
Passando sem ficar nesse avanço.
Olhando o valor que subestimo,
Fico pasmo na imobilidade,
Amo e acredito no abismo,
Ser: não mais que a vaidade.
Algo cai quando em nós caímos,
Valsam as vidas como folhas caídas,
Então a voz é música que ouvimos,
No murmurar tépido das vidas.
Nevoeiro espesso que me cega,
Nada impede, conforta a novidade
Do que vem, do que se entrega
Ao desespero silencioso da verdade.
Caminho o caminho a traço e não sei
Onde estou, quem eu sou, onde vou;
O que de mim para trás deixei,
E lá sei tudo o que agora não sou.
Onde estás, onde fiquei é quem lá
Se espera, sem vir porque já foi;
O que de mim para trás ficou,
E lá sei tudo o que agora não fui.
Abraço a braço, o traço de cada e todo firmamento,
Caminho vasto,
Imune o olhar ao sentimento
Do espaço que se gasta, a cada gesto.
Algo está a perfurar tudo o que existe,
Na calma que explodirá, na raiva irada,
Chamo algo em silêncio, pelo nada,
Chamo a chama que arde no despiste.
Pele, carne, osso que compõe,
A nossa fantasia de existir.
E a nossa maravilha está no ir,
Na valsa do bem que se dispõe.
A falsa realidade se nos opõe,
No sonho que está porvir.
Mas a verdade fala, sem sentir,
O que o olhar procura, ao mentir.
Tanta, tanta piada que lhe acho
À nossa representação quotidiana.
Os actos os prazeres que despacho,
Ao encontro da forma que nos ama.
As poses e posturas automáticas,
As vozes as figuras nada práticas.
Tudo pelo aprazimento de uma fama
Que o uso do tempo, o desuso, chama.
sábado, 4 de março de 2006
terça-feira, 7 de fevereiro de 2006
Zero Seis
Neste ponto se encontra o maior dilema, que o irá acompanhar para sempre na sua vida. Contando em lançar o frasco ao rio, que corria no fundo da quinta, a criança fica a olhar as pedras... Se as colocar no frasco, este irá ao fundo... Ah, mas como são elas preciosas. E se não as colocar? Irá o frasco vaguear pelo rio, correndo o rio, e parará nalguma margem. Ah, e se ela encontra o frasco? Claro que todas estas questões são ridículas aos olhos de um adulto: as possibilidades do frasco parar nas mão dela e, ela, juntar todos os papeis que confessavam o amor do seu amado, eram muitíssimo remotas. Mas aos olhos desta criança, como de qualquer uma, essa hipótese teria de ser nula. Os olhos desta criança não permitiam a possibilidade de ela descobrir a sua paixão tão secreta e quente, bem como os olhos do amor... O amor é um segredo, quer ser mistério e sombra, que de tão indefinida, nos adormece envolvidos por tépidos sonhos. Então ele coloca as pedras, imaginando o dia em que o rio deixe de ser rio, ou então um mergulhador (Ah! a inocência do romance!) descubra o seu frasco de amor, e mostre ao mundo: “Paulo ama Vera”. E o diga, e o grite, e toda a gente abra a boca de admiração, pelo amor, simplesmente, acontecer. Mesmo já não existindo nem ele nem ela, o seu amor estaria ali, naquele frasco com ervas verdejantes e pedras preciosas, intacto ao tempo e à água esperando, qual genio de lâmpada mágica, ser liberto e entregue ao mundo. Ah! sim eram o sonhos desta criança, os sonhos tão inocentes e belos.
A criança coloca, uma a uma, polindo-as com a manga da sua camisola, as pequenas pedras preciosas. Seleccionadas, a dedo, havia até uma com forma de coração... A criança louva o sol que lhe brilha no cabelo dourado, a criança louva o sol e estende-lhe as palmas das mão. Pega no frasco. Leva o amor também. Ergue-se, em suas pequenas perninhas, e avança até ao rio. O seu avô chama-o, ele não vai. Aproxima-se dele, “vamos embora”. Arrasta-o, ele grita, ele berra, ele chora, arrastado pelo vovô... O frasco cai na terra, e ele é levado para casa dos avós que ficava no topo da quinta. “Hora do lanche” dizia o vovô enquanto o arrastava “e nem ajudas-te os avós!”. A criança ia arrastando o seu terror, quanto mais longe o frasco estava dele (e ele ia olhando para ele tremulamente) mais ele chorava e se sentia aterrorizado. O seu amor estava à sorte deste mundo, e ele não queria isso. Não, não deixem o meu amor nesta realidade. O amor quer-se no fundo misterioso e protector das águas. Só o rio ou o mar, se o decidir, o pode fazer voltar à margem terrena. O seu amor não fora ao fundo, o seu amor ficara na poluída e nojenta superfície dos rostos e dos gestos. O seu amor estava em risco.
Por
Olavo Pinto
às
12:20
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sábado, 28 de janeiro de 2006
Não durmas, adormece,
Lembrando todo o dia que passaste
Na companhia de quem mais merece.
Depois, ao dormir, no silêncio, na calada,
Junta em ti todo o mundo que quiseste,
Mas não chegou na hora desejada.
Mas não deixes que abruptamente o sonho se interrompa,
Quebra o precipício entre o sonho e a realidade,
E abraça o dia com o sono de um dia que se apronta.
Não te digas aquilo que vais conhecer cada manhã,
Porque acabas a conhecer apenas a reprodutibilidade
Do artifício humano e da repetição, que mais que tudo, é vã.
E por vã vais tomando esta viagem,
Entre a vida que pelo imprevisível te é dada,
E que ao repetires o mesmo gesto te degrada,
Trocando o passageiro pela bagagem,
Do que pensas ter nesta passagem,
Mas que ao passar sabes ser nada.
Por
Olavo Pinto
às
15:04
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Um vicio mudo
Que se revela num passivo olhar
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Da natureza do mundo
Sinto-me humano
Terrivelmente profano
Amante do desejo e do amor
Do ensejo pecador
De eterno que eu amo
Quero subir aos teus traços
Balançar nos teus laços
Tu bela criatura estranha
Na vida que como manha
Me aprisiona no espaço
Por
Olavo Pinto
às
15:02
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sábado, 7 de janeiro de 2006

Que nojo a feliz porta,
Que abre e fecha e chia.
Olho: ninguém se importa,
O triste fala alegria.
Senta o fumo, pede mais,
Chia e volta e relaxa o braço.
A vida móvel dos demais,
Acha o imóvel cansaço.
Mas eu te observo assim,
Eu, a melodiosa preguiça.
A vivência tua em mim,
São os bons dias criança.
Então vem quem se espera,
Calma está, calma à vista,
Fica em pé em vão em mera
Exposição; para quem assista.
Por
Olavo Pinto
às
17:37
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Tu
Não sei qual é o teu nome
Mas cruzei-me com teu olhar
Notei que me estava a chamar
E que me julgava fome
Não fugi, penetrei no fundo
Arrepiei-me ao perceber
Eras tu, essa que sem querer
Me faz enfrentar o mundo
Passas-te e eras passado
Virei vagamente o pescoço
Tu de novo, em alvoroço
Abri meu coração alado
Sobre o espírito e a mente
Conversamos nesse chão
A vantagem de ser gigante
E a graça de ser anão
Por
Olavo Pinto
às
17:36
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