Não durmas, adormece,
Lembrando todo o dia que passaste
Na companhia de quem mais merece.
Depois, ao dormir, no silêncio, na calada,
Junta em ti todo o mundo que quiseste,
Mas não chegou na hora desejada.
Mas não deixes que abruptamente o sonho se interrompa,
Quebra o precipício entre o sonho e a realidade,
E abraça o dia com o sono de um dia que se apronta.
Não te digas aquilo que vais conhecer cada manhã,
Porque acabas a conhecer apenas a reprodutibilidade
Do artifício humano e da repetição, que mais que tudo, é vã.
E por vã vais tomando esta viagem,
Entre a vida que pelo imprevisível te é dada,
E que ao repetires o mesmo gesto te degrada,
Trocando o passageiro pela bagagem,
Do que pensas ter nesta passagem,
Mas que ao passar sabes ser nada.
sábado, 28 de janeiro de 2006
Estou viciado em tudo
Um vicio mudo
Que se revela num passivo olhar
Para o respirar
Da natureza do mundo
Sinto-me humano
Terrivelmente profano
Amante do desejo e do amor
Do ensejo pecador
De eterno que eu amo
Quero subir aos teus traços
Balançar nos teus laços
Tu bela criatura estranha
Na vida que como manha
Me aprisiona no espaço
Por
Olavo Pinto
às
15:02
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sábado, 7 de janeiro de 2006

Que nojo a feliz porta,
Que abre e fecha e chia.
Olho: ninguém se importa,
O triste fala alegria.
Senta o fumo, pede mais,
Chia e volta e relaxa o braço.
A vida móvel dos demais,
Acha o imóvel cansaço.
Mas eu te observo assim,
Eu, a melodiosa preguiça.
A vivência tua em mim,
São os bons dias criança.
Então vem quem se espera,
Calma está, calma à vista,
Fica em pé em vão em mera
Exposição; para quem assista.
Por
Olavo Pinto
às
17:37
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Tu
Não sei qual é o teu nome
Mas cruzei-me com teu olhar
Notei que me estava a chamar
E que me julgava fome
Não fugi, penetrei no fundo
Arrepiei-me ao perceber
Eras tu, essa que sem querer
Me faz enfrentar o mundo
Passas-te e eras passado
Virei vagamente o pescoço
Tu de novo, em alvoroço
Abri meu coração alado
Sobre o espírito e a mente
Conversamos nesse chão
A vantagem de ser gigante
E a graça de ser anão
Por
Olavo Pinto
às
17:36
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Ela
Os teus olhos são dois lemas
Avisos de mais um presságio
Os teus passos são um relógio
Compasso dos meus poemas
O teu cabelo é vivo e largo
Desenha o mar em movimento
De um ondear cíclico e lento
Águas onde eu me naufrago
O teu rosto posto a gosto
De bem e de boa beleza
Rosto fino e de princesa
Feito divino, secreto composto
Sonho teus lábios perfeitos
Colá-los aos meus num aperto
Se sonho e estou desperto
Só adormeço em teu leito
Dá-me um beijo que mereço
Todo teu ser de anjo altivo
Quando tu dormes eu vivo
E ao acordares eu renasço
Por
Olavo Pinto
às
17:36
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Ervas Aromáticas
Quando algo morre em nós,
A luz apaga a alma transparente
E o pensamento deslizante
Desliza-nos pela quase voz
Ervas aromáticas no fundo
Passeando na água fervida
Cores e amores são a comida
Que alimenta o meu mundo
Não acredites no fecho
Espampanante da janela
A alma é a livre na cela
A bela miúda sem nexo
Ah quantas sílabas cronometradas
Quantas pobrezinhas amadas
Quantas rainhas naufragadas
E quantas princesas fechadas
E quantas conversas mantidas
Por entre olhares e vidas
Que mantêm a distância certa
Entre as vidas olhadas
E os olhares que se acerta
Querer conhecer profundamente
Nunca foi grande virtude
O especialista negro e rude
Cego da vista á amplitude
De todo o amor aparente
Que é o amor de gente
Não esse amor insalubre
Esse amor sem amante
Esse amor incessante
Que nem chega ao deslumbre
Amor é coisa pouca
Para quem a sede imensa
De descobrir o que pensa
Lhe humedece a voz rouca
Mas esse sentimento cansa
Esse que humedece a vista
Pálpebra fecha e coração despista
Troca o destino por uma dança
E nada mais já encaixa
A alma encharca e fecha
Parca de querer ter esperança
Por
Olavo Pinto
às
17:35
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