terça-feira, 13 de dezembro de 2005

Estilo Diamante

O estilo diamante cristaliza
Nos sentidos a voz que se procura,
Visão vasta, calma que alisa
As estrelas no horizonte de negrura.

A praia, aqui em baixo, tão perto
Adormece em mim toda a vontade.
Mas o invisível infinito tem verdade,
Tem a justa imaginação em que desperto.

Hábil é aquilo em que pensamos,
Série de imagens do que nos escapa,
O mistério, o fado, que aspiramos
E que a imunda realidade fede, mata.

Voa comigo, pela vista, cegamente.
Vê comigo como um só olhar célere,
Depois no escuro, são, brilhante,
Adormece o despertar que fere.

Realidade é mera absorção,
Do divino espaço que ela tem.
É aquilo invisível, quase imaginação,
Que bem se vê, por não se ver bem.

Vamos, vamos embora
Que o segundo é hora
E o mundo chora
Dentro, dentro
Onde eu não devia estar
O mundo é momento
E eu sou andar
Sem chegar a ser
Outra coisa senão querer

Vamos, vamos embora
Lá Fora, por fora
A vida não é aqui
Nem nunca foi certamente
Talvez no que previ
Tivesse sido
Mas só momentaneamente
Antes de vir já tinha ido

Vamos, vem comigo
Embora... agora... anda
Que o mundo não manda
Naquilo que eu digo
Vamos, vamos embora
Que o mundo devora
Quem insiste em ficar
Morrer é parar
Viver é ir embora

Será voz a poesia?
Só o tom, sem seu sentido.
O eco real da fantasia.
O agrado sonoro, humano, ouvido.

Será poema
Qualquer tema
Que se escolha?
Não será o pensamento
Um poema desatento
Sem tinta nem folha?

Quem não pensa
Que pensar
É uma doença
Que nos faz falar
Em vez do cantar
De criança
Que em vez de poetizar
Nos faz fervilhar
Na cabeça
Águas com que remar
A esperança

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

Lembro como se fosse hoje
De te ouvir que o tempo foge.
E fugiu.
Que a vida é arte
E todo o que dela fez parte
Partiu.

Então eu desço
Pela sombra, pela escura
À procura da negrura
O que não esqueço

Então eu vou
E agora sou
O que fui!
Vejo-me aqui
Vejo-me em ti
E quanto dói...

Tanto, tanto pensamento que sei
Acaba, agora é tudo para ser nada
Mais alta é só por si a Lei
Que tudo finda – excepto a estrada

Por isso caminho, simplesmente
Sendo já só cinzas que caminham
Sopro no oco que é a mente:
Sonhos que realidades tinham.

Dá valor ao teu ser, em ti, tu
E ao amor, em si, nu
Que a vida acaba, em nada, a cru
Nesta estrada, tudo acaba - também tu

E também tu.

quinta-feira, 17 de novembro de 2005

Metade do mundo é nosso,
A outra metade é sombra.
A nossa é um vago pedaço,
Onde não se encontra a palavra.

Metade do mundo é um jorro
De imagens e vagas memórias.
O nosso, é um sibilado sussurro,
Fragmentos inaudíveis da historia.

Metade do mundo ecoa
Por ruas e suas vertentes.
O nosso mundo desagua
E corre para afluentes.

Metade do mundo na rua,
Há procura do romance.
Metade do mundo na lua,
E nunca mais amanhece.

Metade do mundo desliga
O seu fio condutor da corrente.
Mas, verdade se diga:
O mundo não é vida – é gente.

segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Seis quartos de hora abertos
Expostos como se a vida aqui não estivesse
Irreflectidos como três segundo de fôlego
Essa coisa arrefece
E num passo embriagado e trôpego
Os nossos sentimentos fartos
Bebem de um copo que escurece
Na manhã clara dos quartos

Quadros são janelas para a vista
Vistas turvas mais bem conservadas
Cortes profundos de raciocínio
Mas as oblíquas lânguidas curvas
Num dedo vertical ao declínio
Faz de tudo e nada uma faísca
Que explode na pequenez do fascínio
São mais uma vez águas e turvas

Colados os papéis aos dedos
Fermentos de um qualquer conto
Abro línguas á boca que venero
Qualquer fim desprovido de ponto
Disfarça a voz o que quero
Explodem fantasmas de medos
Mas estou calmo se sincero
Tudo isso em que me encontro
É um doce manejar fraseado
Que procuro e desespero
No fácil gasto e inútil centro

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