sábado, 5 de novembro de 2005

Consome-me.
Come-me.
Devora-me como uma besta bárbara e canibal.
Animal de dentes afiados à procura da sua matéria sólida e consumível.
Podem comer o meu corpo mas nunca devorarão a minha metafísica - prática ou teórica.

Algemado á relutância:
Vamos avançando lado a lado
Da realidade e do sonho,
Para o sonho e realidade;
Metade sou o que sou,
Na outra metade,
O que me suponho.

Mas nunca sobreponho uma metade à outra,
É a minha consciência que lucra!
A minha vivência que não se apressa,
Vença quem vença
Sairemos sempre vencidos pela doença.

Ou talvez seja um ganho negativo,
Mas não me emprenho do relativo:
Vou saboreando tudo o que vem enquanto vivo.

Vou vendo a vida que não volta, voando.
A ver o futuro com os olhos, sonhando.

A vida não é passagem alada,
A vida não é mensagem de nada,
A vida é um não ser outro que não este,
Um não poder sair de algo que nos reveste…

Sentir-nos presos ao que de nós encontramos,
Levitar em pensamentos do que de nós não fazemos,
É um fazer algo mais do que já está feito,
É um nada aperfeiçoar do imperfeito.

sexta-feira, 4 de novembro de 2005

A minha alma sofreu um apagão. Está escura. Vazia. Apenas a minha recordação leve, um estado de consciência mais onírico que real. Um não conseguir voltar atrás por um não querer instintivo. Algo mais que substância, matéria ou facto. Sinto mudanças interiores, e já nem me vejo o mesmo no espelho. E quando fecho os olhos, estou num quarto de espelhos, onde cada reflexo é díspar do seguinte, e nenhum deles sou eu. Entrei no futuro e deixei o passado atrás a porta. Sei que ele lá está, e só nessa medida ele existe para mim. Não tenho agarrados a mim os fios esfarrapados do passado, como sempre foi o nosso caminhar.



Quero água a escorrer-me pelo corpo. Quero a purificação. Quero a catarse, pelas lágrimas caudais. Arrancar de mim a abundância de adjectivos. Quero o método simples e prático de objectivos. O pensamento claro, o corpo firme. Os olhos assim mais penetrantes, nem vagos nem cerrados. Sem nada para obstruir a fluidez e a harmonia própria de um ser uno e não vário. Quero ser grato pela ajuda, divina ou altruísta, sem ter de gritar pelo socorro. Sem ter que dar a mão, apenas enlaça-la. E ser livre de desenlaça-la e colher a flor, e subir á árvore, e acariciar a vida. Acordar o mesmo sem me cansar, por ser diferente. Diferentemente o mesmo exacto existente. Sentir o meu ser vivo e, sem esforço, sentir-me total. Sentir-me leve para voar, e pesado o suficiente para assentar na terra. Ou na rocha. Ou no cimo de um castelo. Ou perto de ti, e depois poder ir outra vez brincar com o mundo.
Na minha alma apagou-se a luz, e sei que a mesma luz não volta mais. Virá outra, mais forte, mais intensa, mais presente, mais abrangente, espalhando-se num suspiro e recolhendo-se a cada canto. O tempo quer brincar comigo, e eu até olho para ele como quem olha para o mar, que vai e vem em cada onda que rebenta. E como uma folha que viaja ao sabor do vento. E como um fim de tarde de um Outono laranja, que espelha em nós o ouro da existência. Abro os olhos, e cá estou eu a existir para o mundo.

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Agora Como Ontem

Viagens atrás da janela
Com os olhos pela rua
A vela atrás arde nua
E a nossa alma numa cela

Revela a bela que há dentro
Tal qual a natureza de cimento

Um sol cinzento
Um brilho nas nuvens
O amor ciumento
E a fachada de desdéns
Os que por uns vinténs
Se sacrificam ao julgamento
Dos infiéis á sua posição
Nas alturas de compaixão
Levam numa mão os bens
Na outra todo o alimento

Agora como ontem, por trás de tudo,
No fim do que julgamos ser começo,
A linha estreita, minga, ainda mudo
O mundo e mais a mão que esfrego e aqueço.

Risos de desesperos inquietantes;
Pisos e pisos de exageros exuberantes;
Luxos em carnes velhas de viver,
E de não ter outro pensar que o poder.

Cada pedaço que levas á boca,
Com o garfo e com a faca de prata,
Mostra a insensatez mesquinhez oca;
Ontem como hoje o poder nos mata.

Foge por entre isso a que chamas mundo,
Intempérie ofuscada de fomes sedentas.
Por entre tudo o que chama-mos nosso e no fundo,
Tudo não passa do retorno às tormentas

Do passado
Que sem passo distanciado
Se aproximam pelo círculo
Ridículo circo
Que compomos
Nós e os sonhos
Realidade detestável realidade
Antes afogar do que como Camões
Morrer servindo algo que sem vontade
O deixou afogar em sonhos e caixões.



Um tiro na nossa sombra
Fere mais que um tiro em nós
Ilusão perene da palavra
Realidade efémera na voz

A sombra escapa infactível
Ilusória beldade encoberta
Vaga indistinta completamente visível
Nós a certeza tão incerta

Porque nós somos tão concretos.
Somos definidos pormenorizadamente.
A alma, o espírito, a mente.
E no fundo somos dejectos.
Sobras de outras sobras ainda.
Restos de luz e projectos.
Perecidos, a nossa sombra não finda.

Enquanto houver luz
A nossa sombra não finda
Paraíso que nos conduz
Para outra coisa mais linda:

...O mundo das sombras
Onde a luz não ofusca
Reflexo que não reflecte palavras
É ela é a nossa busca

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

as almas suam
como as palmas
das mãos
as mentes recuam
onde outras actuam
uns sim's outros nãos
quem se importa
quando a porta
se bate
quem reporta
mão morta
ao ataque
flip flap
não . consigo . ter
um . único . raciocínio
para . abster
o . de...clíneo
curvilíneo
do ser
quando a mesa está posta
mas a barriga indisposta
e as cadeiras dispostas
fora da mesa
sentes que o coração pesa
pisado
sentes a cérebro que reza
resignado
apagado sem memória
a história passada
da tua vida passada
de cada tua passada
em solo firme
lembras-te de sorrir-me
em frente ao sol
em prol
da paixão que sentia
do coração que batia
da ilusão que reflectia
com brilho e lesava a visão
no trilho que inspirava a acção
romance
tudo é um romance
todos somos romancistas
dentro ou fora do alcance
das nossas vistas
somos gnomos
ou gigantes
ou apenas lobos
errantes
com fome por acaso
pêlo pelo ocaso
que raso de entendimento
nos aguça o sentimento
e nos adoça cada momento
do brilhante sol
que motiva a lua
de cada gota mole
que perfura e não sua
cura…
é a busca?
essa luz que ofusca
não acompanha a mudança brusca
para a escuridão dos nossos sentimentos
vamos viver por momentos
e dizer que sempre fomos mortos
os nossos corpos e os nossos copos
cheios
como a lua cheia
freios da ceia
mas não da vontade de cear
nada a recear
quando estamos na imaginação
começa a acelerar
a derrapar
não funciona o travão
um trovão
acompanha a chuva
ácida
e a cara flácida
perfurada pelo ferro
do carro
embatido contra qualquer-coisa-que-imagines
e voltas aos real com sublimes
arrepios
ileso, mas com suores frios
e lágrimas já morto choras
e o sangue pensa-se fora
de ti
e tu morres de imaginação
coras
“morri porque menti
ao meu coração…”

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