terça-feira, 6 de setembro de 2005

Olhos

Gostava de apreciar
Sem ser apreciado
Espécie rara do olhar
Sem ser notado

Mas a onda puxa-nos ao fundo
A água engole-nos a voz
Como ter os olhos no mundo
Sem ter os olhos do mundo em nós?

Como ser sem se ser visto
Escapar á vulgar rotina
Sombra na sombra, e nisto
Luz na luz, imune á retina

Saltar entre as cores da realidade
Copiar o mundo, impune e seco
De qualquer olhar, em qualquer beco
Do segredo entre a mentira e a verdade

Como ter os olhos no mundo
Sem ter os olhos do mundo em nós?

domingo, 4 de setembro de 2005

Outro


Encontramos a Humanidade só num só. Presa em si, raramente expressando sentimentos em relação à natureza que a rodeia, expressando apenas pensamentos em relação à natureza que a compõe. Até mesmo quando se experimenta um sentimento de totalidade e paz interior, esse sentimento traz consigo, consequentemente, nostalgia e reflexão interpessoal.
Nós somos um ser social. Toda a gente o admite. A ideia de um homem completamente isolado torna-se ridícula quando nos apercebemos que é inexistente a capacidade de pensar sem nos basearmos numa vivência colectiva ou numa ideia de colectividade. Porque será que as pessoas reflectem sobre pessoas? Social ou psicologicamente estamos sempre a pensar para os outros, pelos outros ou com os outros. Até mesmo a busca interior da nossa verdade ou existência é indissolúvel dos outros. Quando pensamos na razão do nosso nascimento pensamos na razão porque dois seres anteriores ao nosso ser se uniram. Pensamos na razão porque estamos tão ligados uns com os outros, ao ponto da necessidade de união para que prossiga a criação.
Da mesma forma que a vida, a questão da morte prende-nos inevitavelmente ao outro. Quando se trata de pensar na morte o primeiro pensamento que nos ocorre é a forma e o momento. É um pensamento claramente egoísta. Mas rapidamente analisamos o caçador da nossa vida (o caçador da forma de morte), ou mesmo aqueles que contribuíram nas relações que nos levaram a esse momento e forma de morte. Depois, pensamos nas reacções tidas por aqueles que, em vida, interagiam connosco. Quem vai chorar por mim no momento do meu funeral? E daquele que chora, qual deles será mais real? Qual será o motivo do seu choro? Será real essa tristeza? Ou será apenas a percepção de que também ele acabará por morrer? E como continuará a vida na terra sem mim? Não pensamos nos rios e no sol e nas montanhas e nos ventos, que não irão interromper o seu processo cíclico por nós! Tal como os animais, mesmo com os da sua espécie, não param a sua função, o que por vezes connosco acaba por ser um factor de mudança. Nós somos os únicos aos quais a morte faz alterar a trajectória, e somos os únicos que não pensamos tão-só na morte, mas no nosso funeral.



Detesto-te por seres tu a que nos cria
Por seres tu quem sem culpa
[Detestável olhar-reflexo-alma fria]
Nos faz sentir culpados

És toda a espécie de veredictos
Assombras os sonhos com suores frios
Ou calores arrepiantes
[Pesadelo que de acordado, não despertas, adormeces aos gritos]

Fazes querer dormir
Não de sono mas de repulsa
[Repulsa de ti, insónia flatulenta]
Sono de morte de te apagar

Deixar-te a fluir por essa estrada
E esquivar-nos do caminho
Para outro sítio qualquer

Amarga, por vezes quando visão, doce
Mas na visão nunca és consumida
Ao mastigar-te és sempre amarga
[Mesmo ao mastigar-te com os ouvidos, ou com os olhos, ou com as mãos, ou com o nariz]

Não és vista, nem tocada
Nem sentida [nem falada]
[Rainha despida que nos possui com o olhar]
És simplesmente tempo a escaldar

Detesto todas as tuas esperanças
Que não são tuas, são nossas
Dissolvendo o seu sabor quando as lambes
[Onde guardas o nosso prazer?]

És uma língua comprida
Que nos desnuda
Desproteje com crueza molhada
[A nossa natureza muda]

Detesto ter de te ter
Pois ser sem ti é não ser
Mas ao ser dão-nos oportunidade de ver

Detesto-te por me roubares do meu mundo
Detesto-te por inundares o meu mundo
[Imundo de ti, tu, princípio e fim]
Detesto-te por quereres ser por mim
Ver por mim
Por quase mandares em mim
[Despertar vespetino num sono de desejo]
Por seres tudo, menos o que eu vejo,
quero ver e sonho, [sonho mas afinal]
sobre uma espéscie de quase tu, mas melhor por ser eu total.

DETESTO-TE REALIDADE!

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

Repristinação


Estou farto do mesmo caminho para casa…
De quando a paz de consciência se atrasa…
E a tua ausência chega mais cedo…
Fico na ânsia, em consonância com o medo…

O que escrever no momento certo, exacto, perfeito
o que há-de ser o sentimento que aperto, retrato satisfeito
de nós dois num fragmento lato da realidade,
mas se o nosso fundamento é manter-nos perto da verdade
e o nosso tratamento é o trato de sinceridade
vem comigo ao pensamento coberto de objectividade

Não me quero
deixar invadir pela fantasia e evadir da realidade
Não te quero
deixar partir um dia excepto ao erigir da eternidade

(picture da minha autoria. obturação nr30" F2.8)

Imobilidade


As mãos estavam dispostas, com os dedos estendidos, na mesa. O sol rebatia nas vidraças dos automóveis, e a esplanada não parava de aquecer. Nada se mexia, a não ser talvez, os olhos (que nunca param de mexer) e as explosões de átomos que ocorrem no meu sistema nervoso. De repente a perna direita, bruscamente, estica-se fazendo embater o pé na mesa, entorna o café esquecido, e automaticamente alguns olhares envolvem de susto a imagem.
- Foda-se!
O corpo levanta-se, a casa de banho espera, e a água corre limpando as manchas de café. O pé contorce-se de dor, enquanto a mesa intacta ri. E os olhos continuam ofuscados pela luz que rebate nas vidraças dos automóveis, a esplanada aquece e aquece. Os olhares desviam-se, e tudo volta ao normal, á imobilidade, mas os olhos nunca param de mexer, vagueando no vazio, insensíveis ás explosões de átomos que ocorrem, ás células que correm, até que de repente qualquer outra reacção que fuja ao trâmites de imobilidade os faça existir, para envolver com espanto e susto.
O que a boca fala não diz nada. A boca mexe-se, a língua sobe e desce, mas tudo continua na sua imobilidade. O sistema nervoso transmite dor provocada no pé, uma humidade quente inunda a perna, um odor a café instala-se, a mente reage, e a boca move-se, a voz solta inconsciente.
- Foda-se!
O corpo levanta-se, as mãos disfarçam com água as manchas de café. O pé dói, mas é apenas uma leve consciência de dor, os olhos são sombreados por óculos escuros, aos olhares devolvem-se ao ritmo passivo, os ouvidos recebem o ruído instantâneo de uma mesa pontapeada, seguido de uma palavra.
- Foda-se!
Os ouvidos captam, a mente reage, a mente explode em átomos de considerações. A mente fala, a boca simplesmente passeia a língua entre os dentes, “tenha cuidado com a língua”. A boca fala e não diz nada. A língua lambe e de pouco se apercebe. A mente diz, diz, diz, e nunca fala. E no fim, tudo é uma perfeita imobilidade, interrompida por pequenas pausas, de quase movimento.


Não sei versar
Nem sei pensar logicamente
Por isso versifico o pensar
Sustento-me do inconsciente

Abro livros de pó
Vasculho entre o coração
Descubro que sou completamente só
No espaço que decorre da razão

Tudo o que tu me dizes
Inunda de impossível o teu olhar
Os passados momentos felizes
São suficientemente tristes para chorar

Abre bem esses teus olhos
Fixa algum ponto imaginário
Não te entregues aos sonhos
Sonha dentro do teu itinerário

Mas se por acaso o teu caminho
Não coincidir com o meu
Partimos os dois, cada um sozinho
No entanto, debaixo do mesmo céu…

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