
Detesto-te por seres tu a que nos cria
Por seres tu quem sem culpa
[Detestável olhar-reflexo-alma fria]
Nos faz sentir culpados
És toda a espécie de veredictos
Assombras os sonhos com suores frios
Ou calores arrepiantes
[Pesadelo que de acordado, não despertas, adormeces aos gritos]
Fazes querer dormir
Não de sono mas de repulsa
[Repulsa de ti, insónia flatulenta]
Sono de morte de te apagar
Deixar-te a fluir por essa estrada
E esquivar-nos do caminho
Para outro sítio qualquer
Amarga, por vezes quando visão, doce
Mas na visão nunca és consumida
Ao mastigar-te és sempre amarga
[Mesmo ao mastigar-te com os ouvidos, ou com os olhos, ou com as mãos, ou com o nariz]
Não és vista, nem tocada
Nem sentida [nem falada]
[Rainha despida que nos possui com o olhar]
És simplesmente tempo a escaldar
Detesto todas as tuas esperanças
Que não são tuas, são nossas
Dissolvendo o seu sabor quando as lambes
[Onde guardas o nosso prazer?]
És uma língua comprida
Que nos desnuda
Desproteje com crueza molhada
[A nossa natureza muda]
Detesto ter de te ter
Pois ser sem ti é não ser
Mas ao ser dão-nos oportunidade de ver
Detesto-te por me roubares do meu mundo
Detesto-te por inundares o meu mundo
[Imundo de ti, tu, princípio e fim]
Detesto-te por quereres ser por mim
Ver por mim
Por quase mandares em mim
[Despertar vespetino num sono de desejo]
Por seres tudo, menos o que eu vejo,
quero ver e sonho, [sonho mas afinal]
sobre uma espéscie de quase tu, mas melhor por ser eu total.
DETESTO-TE REALIDADE!
domingo, 4 de setembro de 2005
segunda-feira, 8 de agosto de 2005
Repristinação

Estou farto do mesmo caminho para casa…
De quando a paz de consciência se atrasa…
E a tua ausência chega mais cedo…
Fico na ânsia, em consonância com o medo…
O que escrever no momento certo, exacto, perfeito
o que há-de ser o sentimento que aperto, retrato satisfeito
de nós dois num fragmento lato da realidade,
mas se o nosso fundamento é manter-nos perto da verdade
e o nosso tratamento é o trato de sinceridade
vem comigo ao pensamento coberto de objectividade
Não me quero
deixar invadir pela fantasia e evadir da realidade
Não te quero
deixar partir um dia excepto ao erigir da eternidade
(picture da minha autoria. obturação nr30" F2.8)
Por
Olavo Pinto
às
13:57
0
comentários
Artigos Relacionados:
Imobilidade
As mãos estavam dispostas, com os dedos estendidos, na mesa. O sol rebatia nas vidraças dos automóveis, e a esplanada não parava de aquecer. Nada se mexia, a não ser talvez, os olhos (que nunca param de mexer) e as explosões de átomos que ocorrem no meu sistema nervoso. De repente a perna direita, bruscamente, estica-se fazendo embater o pé na mesa, entorna o café esquecido, e automaticamente alguns olhares envolvem de susto a imagem.
- Foda-se!
O corpo levanta-se, a casa de banho espera, e a água corre limpando as manchas de café. O pé contorce-se de dor, enquanto a mesa intacta ri.
E os olhos continuam ofuscados pela luz que rebate nas vidraças dos automóveis, a esplanada aquece e aquece. Os olhares desviam-se, e tudo volta ao normal, á imobilidade, mas os olhos nunca param de mexer, vagueando no vazio, insensíveis ás explosões de átomos que ocorrem, ás células que correm, até que de repente qualquer outra reacção que fuja ao trâmites de imobilidade os faça existir, para envolver com espanto e susto.O que a boca fala não diz nada. A boca mexe-se, a língua sobe e desce, mas tudo continua na sua imobilidade. O sistema nervoso transmite dor provocada no pé, uma humidade quente inunda a perna, um odor a café instala-se, a mente reage, e a boca move-se, a voz solta inconsciente.
- Foda-se!
O corpo levanta-se, as mãos disfarçam com água as manchas de café. O pé dói, mas é apenas uma leve consciência de dor, os olhos são sombreados por óculos escuros, aos olhares devolvem-se ao ritmo passivo, os ouvidos recebem o ruído instantâneo de uma mesa pontapeada, seguido de uma palavra.
- Foda-se!
Os ouvidos captam, a mente reage, a mente explode em átomos de considerações. A mente fala, a boca simplesmente passeia a língua entre os dentes, “tenha cuidado com a língua”. A boca fala e não diz nada. A língua lambe e de pouco se apercebe. A mente diz, diz, diz, e nunca fala. E no fim, tudo é uma perfeita imobilidade, interrompida por pequenas pausas, de quase movimento.
Por
Olavo Pinto
às
13:56
0
comentários
Artigos Relacionados:

Não sei versar
Nem sei pensar logicamente
Por isso versifico o pensar
Sustento-me do inconsciente
Abro livros de pó
Vasculho entre o coração
Descubro que sou completamente só
No espaço que decorre da razão
Tudo o que tu me dizes
Inunda de impossível o teu olhar
Os passados momentos felizes
São suficientemente tristes para chorar
Abre bem esses teus olhos
Fixa algum ponto imaginário
Não te entregues aos sonhos
Sonha dentro do teu itinerário
Mas se por acaso o teu caminho
Não coincidir com o meu
Partimos os dois, cada um sozinho
No entanto, debaixo do mesmo céu…
Por
Olavo Pinto
às
13:55
0
comentários
Artigos Relacionados:
Acabou-se o que era doce

Iludiu e desiludiu, veio, viu e venceu
E outro perdeu, que antes havia vencido
Apaixonou e desiludiu,
Outro que outro havia querido
E volta a vir, é o retorno
Já é um mito o devir
O que era fresco, agora é morno
O coração nunca arrefece o suficiente para gelar
Nem aquece para que algum dia venha a arder
(picture by me)
Por
Olavo Pinto
às
13:48
0
comentários
Artigos Relacionados:
Enquanto a vida nos brinda
E o amor nos consome
Quando os olhos se fecham
No momento da fome
E as tuas unhas me vexam
Qualquer carícia é bem vinda
Enquanto os músculos se cansam
E o silêncio ensurdece
Quando até o vento é um peso
E nem o sol nos aquece
Mas o pensamento fica aceso
E os nossos sentidos não pensam
Quem te predestinou
A seres o meu suspiro
Quem te falou de mim
Quem te feriu com o tiro
Que te chamou logo no fim
De tudo o que eu sou
No momento de sermos nós
E em que a lua nos chama
Qualquer olhar queima a pele
Enquanto é o coração que ama
E o pensamento nos repele
Quando já nada vem à voz
Por
Olavo Pinto
às
13:41
0
comentários
Artigos Relacionados:
