quarta-feira, 18 de maio de 2005

Bate asas o coração


Bate asas o coração
Do pássaro no gelo.
Ele, sem ter a noção,
Quer seguir a sê-lo.

Pausado o pássaro pia,
Um pio de piedade.
Menino, em sabedoria,
Ouve no pio a verdade.

Mas para mentes em uso,
De tanto uso e saudade,
O pio não fala, recuso
De ouvir a outra metade.

O menino pára, comove
Do pássaro que pia no gelo.
A mente em uso, não ouve,
E segue, só assim sabe sê-lo.

(photo: google search)

A Galope


A galope, a galope, a galope
Pelas horas que morrem nos passos do tempo
Pelos traços de vida que correm por fios de água
Pelas fileiras de animais e insectos que tacteiam muros
Pelos odiosos e cruéis grunhidos da natureza
que incendeiam a voluptuosidade da consciência
Pelos indistintos e mecânicos compassos musicais da certeza
que gelam com insensatez e descrédito a essência
Fraco o vento e mais o sol que fumega
Voga de velos que aflita isenta incentiva
Foge a mais, mais um, e só mais um
Que discreta e lenta enfrenta a lida

(gravura inspirada nos livros de J.R. Tolkien)

terça-feira, 10 de maio de 2005

Mão Inquieta


A mão inquieta pede faminta, a forma intacta da matéria
A mão inquieta foge e escreve, por mim minha miséria
Formula encantos sustos, prantos, patética em força e espírito
Desgasta à soma, ao tempo, ao nada, à forma, à vida onírica

Alcanço em vista, mas que vista?
Se é cega aquela que a detém,
O poder a forma e despista,
Todo o sentido que isso tem.

Chama-se a honra, valentia, a descoberta,
Pensando sempre a sorte, a vasta
Possibilidade, a porta aberta
Vendendo a infortunada, toda, nefasta.

Agarro o tempo com a mão que escrevo,
Minha mão inquieta da matéria,
Agarro a escrita largo o trevo,
Agarro o tempo, caio em miséria.

(Foto: © "Drawing Hands" - M.C. Escher)

terça-feira, 3 de maio de 2005


Não posso escrever nas pedras
Embora nelas se tenha escrito
Tantas horas, flácidas quebras
Do tempo que afoga o rito

Não posso beber de fontes
Agoura-me o seu veneno
Procuro no escuro horizontes
Para matar a sede sem dano

Não posso ver-me no rio
Senão reflexos de imundice
Áspero e perfeito desvio
Do que a alma ao corpo disse

Pára! Hora vaga e nada
Naufraga e bóia a massa
Escorre na linha enfadada
Tormento rude que passa

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Heróis destemidos



Escrevo possesso e mudo
De qualquer som ou silêncio
Busco cego e surdo
Ofusco em luzes do absurdo
Rasgo barreiras infames
Procuro infiéis nas trames
Erguidas sobre o armistício

Suo cada gota de suor
Por aquilo que me resta
Nunca desprezei o amor
Sem nunca o decompor
Faço uso de cada lágrima
Para limpar toda a grima
Que fere enquanto se arrasta

Nunca inventei palavras
Nunca viajei por sentidos
Por quantos caminhos aras
Mais as forças são raras
Então eu imóvel e certo
Deixo o caminho aberto
Para os heróis destemidos

(Photo: Lion King, Disney. Act III, Movie stills from Simba's Return to the End, Simba Return's)

terça-feira, 26 de abril de 2005

Multilateral, Indizível



Estou cada vez mais para lá
Daquilo que estou á procura
Mas então se não é cura
Nem corpo nem mente doente
Então o que procurará
Cada poeta insistente?

Cada poeta é demente
Cada gota é loucura
A seta lançada em noite escura
Será o ditar de um fado?
Será o voar da mente?
É simplesmente outro lado.

Mas se tudo é bilateral
Então o poeta desassossega
Sobressalto do tacto de alma cega
Abre a dimensão invisível
Solta a tinta ao multilateral
E escreve o mundo indizível

( Foto: © Escher, Relativity )

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