terça-feira, 3 de maio de 2005


Não posso escrever nas pedras
Embora nelas se tenha escrito
Tantas horas, flácidas quebras
Do tempo que afoga o rito

Não posso beber de fontes
Agoura-me o seu veneno
Procuro no escuro horizontes
Para matar a sede sem dano

Não posso ver-me no rio
Senão reflexos de imundice
Áspero e perfeito desvio
Do que a alma ao corpo disse

Pára! Hora vaga e nada
Naufraga e bóia a massa
Escorre na linha enfadada
Tormento rude que passa

quarta-feira, 27 de abril de 2005

Heróis destemidos



Escrevo possesso e mudo
De qualquer som ou silêncio
Busco cego e surdo
Ofusco em luzes do absurdo
Rasgo barreiras infames
Procuro infiéis nas trames
Erguidas sobre o armistício

Suo cada gota de suor
Por aquilo que me resta
Nunca desprezei o amor
Sem nunca o decompor
Faço uso de cada lágrima
Para limpar toda a grima
Que fere enquanto se arrasta

Nunca inventei palavras
Nunca viajei por sentidos
Por quantos caminhos aras
Mais as forças são raras
Então eu imóvel e certo
Deixo o caminho aberto
Para os heróis destemidos

(Photo: Lion King, Disney. Act III, Movie stills from Simba's Return to the End, Simba Return's)

terça-feira, 26 de abril de 2005

Multilateral, Indizível



Estou cada vez mais para lá
Daquilo que estou á procura
Mas então se não é cura
Nem corpo nem mente doente
Então o que procurará
Cada poeta insistente?

Cada poeta é demente
Cada gota é loucura
A seta lançada em noite escura
Será o ditar de um fado?
Será o voar da mente?
É simplesmente outro lado.

Mas se tudo é bilateral
Então o poeta desassossega
Sobressalto do tacto de alma cega
Abre a dimensão invisível
Solta a tinta ao multilateral
E escreve o mundo indizível

( Foto: © Escher, Relativity )

A minha falta



Eu preciso de ti sempre ao pé de mim. Sentir o teu calor e o teu abraço, ou pelo menos algo que me tire deste cansaço, de pensar na tua voz, ouvi-la na minha cabeça, como um espírito que me possui. Tu não me fazes falta, tu és a minha falta, sem ti ando em círculos, à solta, à espera da tua volta, à procura da tua sombra, à espera de te ouvir dizer a palavra que faz com que eu esteja aqui para ti, a palavra que me faz rir e chorar, ir e voltar por ti, e só por ti, tu que és a minha razão e a minha mentira, que és a minha perdição e a minha lira que toco e que faço tocar só para fazer dançar a nossa chama. A nossa chama maior que qualquer chama do inferno, maior que qualquer desejo interno, maior que nós, maior que a voz de deus e que todos os seus crentes. A nossa chama que faz arder percepções aparentes, e deixa apenas as nossas almas juntas no seu calor, unas de tanto amor.
Eu amo-te, será que existe algo mais importante, algo que valha mais que o instante em que estou contigo, a tocar os teus lábios, a teus pés, no teu umbigo, a dizer-te ao ouvido aquilo que está a ser sentido… contigo não existe politica nem religião, não existe pecado nem condenação, contigo só vejo liberdade tu que és tão maior que este mundo tão pequeno, tu que de ti só perder temo...

Amo-te Joana.

(Foto: ©Roy Lichtenstein, Nude with Abstract Painting, 1994 )

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

E ser visto é ser


Até me vieram os olhos às lágrimas
E tive então, tristemente, uma visão
De um futuro ou passado, talvez imaginação.

Quando me vieram os olhos às lágrimas
O mundo todo foi só o que se via,
E, do que não se via
Depois disso, um precipício principia.

Com os olhos nas lágrimas vi:
A vida é do tamanho de um gesto
E nesse momento somos só um rosto.

Assim, de olhos nas lágrimas, senti
Que aquilo que fazemos aqui
É ver. E ver é viver.

E ser visto é ser.

(© Robert Doisneau, Le Baiser de l'Hôtel de VIlle, 1950)

Muss es sein? Es muss sein!


Não consigo parar de olhar o invisível. Desculpa.
Se quiseres olha comigo como Saint-Exupéry,
Lado a lado, fitando o mesmo horizonte.
E mesmo sem fitar mais que montanhas,
Surgirão delas novas visões que um só olhar não vê.
(Desculpa nada! Pediria desculpa se eu tivesse a intenção,
Agora a intenção não parte de mim, parte de nós).
Se te queres ir embora, porque é não te queres ir embora?
Podes ir, garanto-te que ficas aqui na mesma!
O problema não é tu ires embora, porque tu ficas,
O problema é tu ires embora, porque queres ir embora.

As nuvens passam quase como o tempo passa,
Porque o tempo destrói até as nuvens que passam.
Somos crianças que constroem castelos de areia,
Ao qual o mar de seguida os transforma de novo em areia,
E nos rouba a felicidade...
Podemos não construir castelos de areia frente ao mar,
Mas o que nós construímos é-nos deformado pelo tempo,
E nos rouba a felicidade...
Podia-mos pensar construir castelos indestrutíveis,
Mas as crianças não sabem moldar senão areia.
E nós não sabemos mais do que a vida nos ensina.

Tem que ser? Tem que ser!
E eu não vou cair noutro que não eu,
E eu não vou ser outro que não eu,
E eu só vou estar aqui porque tu és.
Disse-me um amigo que não namoro contigo,
Que eu vivo para ti.
E o que importa aqui não foi o que ele disse,
Porque o importante é que eu vivo para ti,
E se alguma vez te perguntares em que penso,
Agora já te podes responder, porque és tu...
Tem que ser? Tem que ser!

(Fotografia do filme "A Insustentável Leveza do Ser" livro de Milan Kundera)

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