terça-feira, 26 de abril de 2005

A minha falta



Eu preciso de ti sempre ao pé de mim. Sentir o teu calor e o teu abraço, ou pelo menos algo que me tire deste cansaço, de pensar na tua voz, ouvi-la na minha cabeça, como um espírito que me possui. Tu não me fazes falta, tu és a minha falta, sem ti ando em círculos, à solta, à espera da tua volta, à procura da tua sombra, à espera de te ouvir dizer a palavra que faz com que eu esteja aqui para ti, a palavra que me faz rir e chorar, ir e voltar por ti, e só por ti, tu que és a minha razão e a minha mentira, que és a minha perdição e a minha lira que toco e que faço tocar só para fazer dançar a nossa chama. A nossa chama maior que qualquer chama do inferno, maior que qualquer desejo interno, maior que nós, maior que a voz de deus e que todos os seus crentes. A nossa chama que faz arder percepções aparentes, e deixa apenas as nossas almas juntas no seu calor, unas de tanto amor.
Eu amo-te, será que existe algo mais importante, algo que valha mais que o instante em que estou contigo, a tocar os teus lábios, a teus pés, no teu umbigo, a dizer-te ao ouvido aquilo que está a ser sentido… contigo não existe politica nem religião, não existe pecado nem condenação, contigo só vejo liberdade tu que és tão maior que este mundo tão pequeno, tu que de ti só perder temo...

Amo-te Joana.

(Foto: ©Roy Lichtenstein, Nude with Abstract Painting, 1994 )

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

E ser visto é ser


Até me vieram os olhos às lágrimas
E tive então, tristemente, uma visão
De um futuro ou passado, talvez imaginação.

Quando me vieram os olhos às lágrimas
O mundo todo foi só o que se via,
E, do que não se via
Depois disso, um precipício principia.

Com os olhos nas lágrimas vi:
A vida é do tamanho de um gesto
E nesse momento somos só um rosto.

Assim, de olhos nas lágrimas, senti
Que aquilo que fazemos aqui
É ver. E ver é viver.

E ser visto é ser.

(© Robert Doisneau, Le Baiser de l'Hôtel de VIlle, 1950)

Muss es sein? Es muss sein!


Não consigo parar de olhar o invisível. Desculpa.
Se quiseres olha comigo como Saint-Exupéry,
Lado a lado, fitando o mesmo horizonte.
E mesmo sem fitar mais que montanhas,
Surgirão delas novas visões que um só olhar não vê.
(Desculpa nada! Pediria desculpa se eu tivesse a intenção,
Agora a intenção não parte de mim, parte de nós).
Se te queres ir embora, porque é não te queres ir embora?
Podes ir, garanto-te que ficas aqui na mesma!
O problema não é tu ires embora, porque tu ficas,
O problema é tu ires embora, porque queres ir embora.

As nuvens passam quase como o tempo passa,
Porque o tempo destrói até as nuvens que passam.
Somos crianças que constroem castelos de areia,
Ao qual o mar de seguida os transforma de novo em areia,
E nos rouba a felicidade...
Podemos não construir castelos de areia frente ao mar,
Mas o que nós construímos é-nos deformado pelo tempo,
E nos rouba a felicidade...
Podia-mos pensar construir castelos indestrutíveis,
Mas as crianças não sabem moldar senão areia.
E nós não sabemos mais do que a vida nos ensina.

Tem que ser? Tem que ser!
E eu não vou cair noutro que não eu,
E eu não vou ser outro que não eu,
E eu só vou estar aqui porque tu és.
Disse-me um amigo que não namoro contigo,
Que eu vivo para ti.
E o que importa aqui não foi o que ele disse,
Porque o importante é que eu vivo para ti,
E se alguma vez te perguntares em que penso,
Agora já te podes responder, porque és tu...
Tem que ser? Tem que ser!

(Fotografia do filme "A Insustentável Leveza do Ser" livro de Milan Kundera)

terça-feira, 11 de janeiro de 2005

Vamos lá então existir para o Mundo!


A tua realidade, a que só os teus traumas pertencem, é uma imitação da realidade em que nasceste e que tu repudias.
Chamas-me á atenção, em nome do preconceito e só evocas valores que fazem parte, supostamente, do teu repúdio. Tu pensas assim porque te fizeram assim. Tu não sentes o que sentes, sentes o que te pedem, com todos os obséquios. As regras que a sociedade Ocidental te impõe, são as regras que te regem, reprimindo o altruísmo e o sentimento Humano. O amor existe e é por ele que eu me rejo. A sociedade vê mal? E lá sais tu da toca de cabeça baixa, a levantar o peito.
Por amor de Deus!
Se há coisa que eu detesto é o preconceito, se há coisa que eu adoro é o a bem estar emocional e psicológico. Dá as mãos a quem está ao teu lado, o resto são histórias! De encantar. Sou uma criança, preciso de brincar e amar, para aprender a ser unificado, entre a inteligência e a experiência. O resto? O resto são manias que se estão afectadas pelo comportamento, têm de ser forçadas para que nenhuma lógica nos prenda.
E vamos nós voltar ao fingimento, ao mundo das palavras ocas, simplesmente para que os nossos sentimentos sejam oficialmente aceites! Binómio realidade/verdade! Cooperação fingimento/existência. Supremacia do que as bocas vêm ao que os olhos dizem… Cegos… e ocos. Não dizem se não “libertem-me” e não vêm senão obrigações e comportamentos. Deixem-me ser como sou! Deixem-me ver o que vejo e dizer o que sinto! Amo-vos a todos! Humanos da retórica e da dialéctica, da estrutura labiríntica, dos dados da sorte que fazem da vida um jogo! Deixai-me jogar também! Deixais?

Eu só queria existir para o Mundo!

Eu só queria existir para o Mundo!
Ser a verdade e a ética,
Mas a vida é um segundo,
De irregularidade estética.

Comer o que o tempo nos dá,
Sendo comidos sem o pudor
Da vida ser um enorme sofá,
E o tempo um sofá menor.

Abraçar a inexistência,
Como se que existisse.
Observar a consciência,
Como se o tempo mentisse.

Deixar cair um corpo,
Deixar mentir o tempo,
Como se parte um copo.
Como se mente ao vento.

Deixa cair cá fora tudo o que é fundo!
Só se a verdade for possuída pela ética,
Por um segundo, na irregularidade estética,
Vamos lá então existir para o Mundo!
(Fotografia: Filme "The Butterfly Effect", 2004, Eric Bress)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

O Tempo

A vida é muito pequena para estares preocupado com tudo isso que chamas de preocupação, e nem te preocupas em saber o que isso significa afinal, se é que isso tem sequer qualquer significado. Viver pode ser muita coisa… uns vivem á espera que a vida acabe, outros estão á espera que ela comece. Foi o tempo que aqui nos trouxe, e será ele que daqui nos levará. E o tempo vai-se-nos sendo dividido por momentos, os momentos em que nos deixamos ser quem somos. Aqueles momentos em que deixamos escapar uma palavra, um olhar, um sorriso, um gesto, uma expressão que não devia estar ali, que não queremos que esteja ali, não assim dessa maneira. Porque dessa maneira vai haver sofrimento, vai haver dor, vão haver coisas que ninguém quer que hajam. Para o tempo nos transportar, temos de deixar muito daquilo que pensamos ser nosso, mas que é do tempo e que se perde com ele. E o que custa sempre mais é admitir que o tempo já o levou, e que já fomos permitindo que ele nos levasse para outro lado, para outro sítio, para outra forma de nós, porque no tempo fomos tendo cada vez mais momentos nossos e não do tempo. E vamos começando a chamar ao que é nosso de passado, e assim nos deixa de pertencer, passando a ser do tempo que foi, e que nos leva para o que será. A cada minuto, cada vez mais nós. A cada segundo, cada vez mais aqui. A cada dia menos somos o que fomos. A cada dia mais nos afastamos de qualquer coisa que fomos, para ser mais nós. E a cada mês que passa mais perdemos o que nos pertence, em detrimento do que nos, cada vez mais, vai pertencendo. Assim, ganhando e perdendo, vamos sendo sempre nós, vamos continuando sempre com o que dizemos ser nosso, vamos continuar. Porque a vida é a continuidade de tempo. E o momento… o momento somos sempre nós – fomos sempre ele.

domingo, 12 de dezembro de 2004

Eu

Eu não sou Eu Social,
O Eu Social é que é Eu.
Viver é morrer mal,
Morrer é viver no Céu.

Se vivemos todos no instante
Em que a morte ainda não veio,
Morremos todos a meio,
De uma vida insignificante.

Deixamos da vida metade,
Sonhos, futuros, inexistências.
O resto que deixamos é verdade,
Memórias, panos, vivências,
Fazendo de tud’isso saudade.

Mas se em flagrante delito,
A vida nos é amputada,
De que nos serve este rito,
De procurar destin’aflito.
Um sino que toca é nada.

Mas se eu me distingo
Entre o que sou e procuro.
Então eu sou o que ligo,
O presente ao futuro.
Um futuro que instigo.

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