domingo, 12 de dezembro de 2004

Eu

Eu não sou Eu Social,
O Eu Social é que é Eu.
Viver é morrer mal,
Morrer é viver no Céu.

Se vivemos todos no instante
Em que a morte ainda não veio,
Morremos todos a meio,
De uma vida insignificante.

Deixamos da vida metade,
Sonhos, futuros, inexistências.
O resto que deixamos é verdade,
Memórias, panos, vivências,
Fazendo de tud’isso saudade.

Mas se em flagrante delito,
A vida nos é amputada,
De que nos serve este rito,
De procurar destin’aflito.
Um sino que toca é nada.

Mas se eu me distingo
Entre o que sou e procuro.
Então eu sou o que ligo,
O presente ao futuro.
Um futuro que instigo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Virei costas a mim próprio

Virei costas a mim próprio,
E vi-me partir a mim,
De principio achei impróprio
Deixar-me partir assim.

Não fui atrás de mim, esperei
E enquanto esperava me vi partir sem rumo,
Certo do destino e do caminho, fiquei,
Pensando em mim, no encontro me sumo.

Olhei, e vi que não via
De mim nem sombra ou sinal.
Se a vida é assim fantasia,
A quem pertence afinal,
A vida que eu daqui via?

Esperando me encontro no meu desaparecer.
Sendo o tempo da vida, ou o tempo de si,
Onde o sentimento pensa em ser,
E o pensamento sente o que vi,
O desespero de a mim me ver.

Mas se eu sem me ver me sinto,
O que é estranho, simplesmente,
É que eu sinto estranhamente,
Que eu estranhamente me minto,
Um de mim a mim me mente.

Acertando o passo comigo,
Olhando eu duas coisas opostas,
Eu conversando-me como amigo,
No entanto me viro as costas.
Porque a vida que eu sigo,
Eu que ali vou, não ligo.
Tu que aí vais, não gostas.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

Quando o que vem, vem de lado algum...

Não nasci ontem. Nasci na remota peça imensa de tempo que extravagantemente se consumiu segundo a segundo. Milhares de segundos passaram desde esse instintivo momento em que olhei para este mundo. Sentir? Senti de certeza – e não foi pouco. Senti as profundezas da beleza, as imundices da tristeza, as provocações e a intermitente tentação cinestésica atractiva. Orgulhosamente sinto por este estádio sadio de pensamento meneável a ostentação de um fado dúbio que me simplesmente maravilha. Quando me lembro do quanto eu queria voar, penso no quanto agora voo e vejo a diferença – quando o queria, para além de não o ter, não sabia o que era e só usufruía do engordurado sabor do desejo; agora voo pensando que apenas penso voando e sei, sei com certeza, que a vida está aqui, onde eu estou voando. A vida são dois dias? Não, são duas metáforas embrulhadas em papel de sinestesias com um cartãozinho escrito com tinta disfórica. Ah, sonho! Quanto do teu material foi encontrado por estas ruas, mas nunca estas ruas conseguiram utilizá-lo como tu. Como tu és tão bom ó sonho! Como tu és tão certo e conforme. Como tu és real, ó sonho. A realidade? Esta, não, não veio para ser fantástica, veio para esperar por ti, aqui. Tu, sim tu ó sonho, tens de ser o magnifico, para magnificar a realidade. Ó realidade, realiza-o. Realiza o sonho que se te depara. Sonhar? Só mais um bocadinho, depois que todo o horizonte seja real. Construo, quem não constrói? Também, toda a construção tem pontos comuns, mas nem todas as construções são iguais. Há construções que são uma merda pegada. Depende da forma de construir, não é? Quem não quer, que pelo menos não destrua a construção dos outros, que eu não ando para aqui a construir coisas para que um palhaço qualquer venha para aqui destruir o que é meu. Quem quer saber das tuas queixas, afinal, elas são tuas e não minhas, não é? Hein? Á espera do quê? Não constróis aí, constrói ali foda-se! Queres perder tempo para ganhar o quê? Isso não dá nada. Corroam-me, corrompam-me, isso! Venham, todos juntos e mais os vossos sindicatos. Manifestem-se, avante! Contra mim e contra os que estão nas minhas costas e na minha fronte, que eu pá, eu? Eu estou no meio. Nem vejo o que há lá para trás, nem o que há lá para a frente! E no meio de tanta confusão, da confusão que vocês fazem, nem o que está aqui ao meu lado eu compreendo. Que se lixe! Amanha é outro dia, não será? Sei lá… o que tu esperas de mim, porque o que eu espero de ti é mais do que eu espero que tu possas esperar. Quero-te muito, a sério, para que ter de passar por tanto quando eu sei o que quero? Se me enganar tanto me engano agora como daqui a 2 horas, afinal 2 horas não transluzem nada que possas esperar que transluza. Tu sabes jogar? Ah, eu também. E os dois jogamos de maneiras muito iguais, melhor assim que assim mais tempo dura o jogo. E quanto mais jogarmos mais transluzirá, e quem perderá? Ah… sei lá… Serás tu, serei eu? Nah… ninguém perderá, os dois ganharemos nem que sejam 2 horas de experiência no jogo. E pode ser que no fim eu já nem te queira – pode ser mesmo que te ame.
Dá-me a impressão de estar a falar sozinho. Mas não, afinal de contas nem estou a falar. Melhor, que assim estamos os dois calados. A ouvir-nos um ao outro. A ouvir-nos cada um a si. Mas é pena que agora me adormeceram os dedos!

domingo, 28 de novembro de 2004

Não me lembro de escrever isto...

Ainda ontem os pássaros sobrevoavam nuvens erróneas
Hoje é mais um cigarro que se ardeu nas mesmas cinzas
[incorpóreas
O chão que pizas
Personagens que idealizas
Observações que frisas
E insistes em conceber mais um mundo, mais um céu
Mais um Juízo sem juízo, mais banco que réu
[concebido
Provavelmente és mais um sonho embebido
Num mundo sem céu, desprotegido

sábado, 27 de novembro de 2004

Antes do Amor


Porque é que tens tanta pressa em me amar. Perguntaste-me tu. E eu respondi, mas antes, pensei. A primeira coisa que me veio á cabeça foi o óbvio, porque não há tempo a perder, e não há! Mas seria uma resposta demasiado apresada com o intuito de apenas apressar o nosso amor. A pressa não é minha, é do amor, disse-o eu depressa e bem. E tu ignoras-te o nosso amor, e beijaste-me com o nosso amor ali mesmo ao lado a planar. E enquanto ele planava pensava na falta de amor que cabia ali. É que cabia mesmo pouco, porque foi um beijo rápido, seco, e tu como o beijo foste-te embora com a desculpa de uma coisa qualquer, mas que pelos vistos, mais importante que o nosso amor.
Passei a tarde sentado na esplanada a pensar no nosso amor ali a planar ao nosso lado, enquanto tu me beijavas. E eu perguntei-lhe ao nosso amor, o que é se passa afinal. E ele não respondeu, mas não um silêncio de quem não sabe, mas um silêncio cheio de sabedoria. E eu, nesse silêncio, vi o que o que nos falta é o aroma cintilante de um silêncio anestésico. Um ver desfocado de um ruído longínquo, e claro, um puxar impulsivo e magnético. Tudo isto é muito fácil de descobrir e de se desenhar numa folha. Mas se o amor coubesse numa folha passaríamos a fazer das pessoas meras suposições e das folhas certezas. O amor é uma coisa que cabe ás pessoas, não ás folhas, as folhas são meros tapetes voadores para viajar na memória e nessa certeza incerta de querer amar. Se é a falar que a gente se entende, é a escrever que a gente se encontra. E eu encontrei-te por aí, perdida nas entre linhas de uma folha especial.
Será que tu sabes amar? Ou será simplesmente amor o que sentes sem o praticares comigo? O amor é sempre dicotómico, bipolar, unidireccional, o amor tem sempre o amar e o não amar num só. O amor é um conjunto de paixões indecisas, de fracções imprecisas, de embarcações e brisas, de montes e névoas, de pontes arquitectadas sem réguas, de amantes e amadas, da jusante escapada em rumo ao horizonte em que me esfumo.

Não entres desprotegida na estrada da vida

Está um frio que congela. Tremo mesmo de frio. Porque estou cá fora, fora de ti, longe de ti, sozinho. Gosto de me recordar que existe algo no fundo de mim por dissolver nessas águas que se foram acumulando em mim. Corre agora fervorosamente por todo o meu corpo uma vontade indómita, instintiva, como se o meu ser sofresse de inadaptação ao tempo e espaço que o percorre e corrompe. Agacho-me, enrolando o meu corpo. Corpo, mente, coração, alma. Tudo somente nomes. Somente nomes aos quais nos habituamos e pelos quais dividimos o nosso corpo, porque tudo é corpo, não adianta contrariar uma verdade tão compulsiva. Para quê arriscar? Para quê? O que me darão em troco por pensar, sentir ou premunir? São tudo trocos que não movem mundos, porque aos mundos pouco lhes importa que esses pedaços ínfimos de poder não se movam. A quem lhe importa o que sentes ou o que pensas? Achas mesmo que isso vale alguma coisa? Claro, se lhe deres uns retoques para que caiam lágrimas até pode valer, caso contrário são meras birrinhas tuas, meras perrices ilógicas. Será que te sentes mesmo atraída para esses pródigos consultórios sentimentais? Ou serão somente os factores atenuantes da tua falta de lógica, sentido e desvirtualização do ser. Sabes quando te agarras ostensivamente a um suporte para manteres o equilíbrio num autocarro. Ou mesmo o cinto de segurança num automóvel. È isso que a vida pretende, que o contacto directo seja atenuado e estejas protegido. Viaja, sim, pela mente através do sentidos. Ver será sempre com os olhos, mantém o equilíbrio, não saias do automóvel enquanto percorres a estrada da vida, todas essas virtudes que encontras no ambiente condicionado, toda a segurança prometida se evapora quando entras desprotegida na estrada da vida. Porque eu amo-te, e não te quero perder por estúpidas tentações de sentir mais que o sentimento faz sentir, mais que o que a vida permitir.

prática sonho teoria © 2008 Template by Dicas Blogger.

TOPO