sábado, 27 de novembro de 2004

Não entres desprotegida na estrada da vida

Está um frio que congela. Tremo mesmo de frio. Porque estou cá fora, fora de ti, longe de ti, sozinho. Gosto de me recordar que existe algo no fundo de mim por dissolver nessas águas que se foram acumulando em mim. Corre agora fervorosamente por todo o meu corpo uma vontade indómita, instintiva, como se o meu ser sofresse de inadaptação ao tempo e espaço que o percorre e corrompe. Agacho-me, enrolando o meu corpo. Corpo, mente, coração, alma. Tudo somente nomes. Somente nomes aos quais nos habituamos e pelos quais dividimos o nosso corpo, porque tudo é corpo, não adianta contrariar uma verdade tão compulsiva. Para quê arriscar? Para quê? O que me darão em troco por pensar, sentir ou premunir? São tudo trocos que não movem mundos, porque aos mundos pouco lhes importa que esses pedaços ínfimos de poder não se movam. A quem lhe importa o que sentes ou o que pensas? Achas mesmo que isso vale alguma coisa? Claro, se lhe deres uns retoques para que caiam lágrimas até pode valer, caso contrário são meras birrinhas tuas, meras perrices ilógicas. Será que te sentes mesmo atraída para esses pródigos consultórios sentimentais? Ou serão somente os factores atenuantes da tua falta de lógica, sentido e desvirtualização do ser. Sabes quando te agarras ostensivamente a um suporte para manteres o equilíbrio num autocarro. Ou mesmo o cinto de segurança num automóvel. È isso que a vida pretende, que o contacto directo seja atenuado e estejas protegido. Viaja, sim, pela mente através do sentidos. Ver será sempre com os olhos, mantém o equilíbrio, não saias do automóvel enquanto percorres a estrada da vida, todas essas virtudes que encontras no ambiente condicionado, toda a segurança prometida se evapora quando entras desprotegida na estrada da vida. Porque eu amo-te, e não te quero perder por estúpidas tentações de sentir mais que o sentimento faz sentir, mais que o que a vida permitir.

sábado, 28 de agosto de 2004

Espada que quebra não fere
Quando te perdes na febre,
Num rodopio de imagens,
Milhares de locais e passagens
Inidentificáveis,
Quero, mas não são enquadráveis
Nestes momentos de lágrimas frágeis.

Cai, gota a gota, no chão molhado,
Cai, e desaparece, cansado,
Exausto,
Insanidade do anjo no holocausto.
Quando a verdade existe, mas não vem,
Quando a sanidade está por um riste,
E nós também…

Tentei, eu juro, e foi com muita calma,
Bem calma, a situação da alma.
De palma a palma, de orelha a orelha,
De boca a boca, sufoca a ovelha
Que te dá a lã para te aqueceres neste equador da mente,
Mas ela é fã dos saberes do amor inconsequente.

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

"Numa mão sempre a pena e noutra a espada"

Numa mão sempre a alma, na outra o pecado
Numa mão sempre a calma, na outra o fado
Numa mão sempre o naufrago, na outra o naufrágio
Numa mão sempre o mago, na outra o presságio
Numa mão sempre a beleza, na outra a mágoa
Numa mão sempre a tristeza, na outra a lagoa
Numa mão sempre a luz, na outra a palavra
Numa mão sempre a cruz, na outra a sombra

Numa mão a água, na outra papel
Numa mão a mágoa, na outra o mel
Numa mão, a vida, na outra a morte
Uma mão decidida, a outra à sua sorte

quarta-feira, 25 de agosto de 2004

Uma outra lua

Apaixonar-se,
Dás-te conta do que se passa?
Não faz sentido, disfarça.
Um príncipe e uma princesa,
Numa historia de encantar
Sem acabar, no eterno, sem o inferno vir?
Amar é uma história, na realidade é difícil
Amar é memória, com saudade… é um míssil

Amor / Amante
Que te ataca, destrói
Que te penetra, corrói
Amor, voa, não voltes
Amor?... Não o soltes!

Num mundo onde toda a palavra rima, mas nenhuma faz sentido,
Escuto ao longe uma luz que se traduz, indefinido
Sacio-me com palavras, que na ordem certa matam a fome.
Ganho toda a visão, solto o grito, é o teu nome...

Não tenho mundo, o processo o procura
Não tenho doença, mas quero a cura
O tempo perdura e não cura, fere
O pensamento, lento, de sentimento não requer

Não importa o que eu digo
Não importa nada do que eu falo
Mas quando eu faço, e consigo
O importante não é sonhar, é alcança-lo
Mais que um sonho, um ideal
Mais que um ideal, um final… feliz?
Quem sabe se foi, foi como Deus quis!

Rimo, é verdade,
se faço sentido, quem o sabe?
Talvez o faça e a realidade não o adapte,
porque é um coração distinto que bate.

É outro sinal que se alcança.
É outra voz que dança
ao som de uma outra lua,
de um outro silêncio,
talvez seja tua,
se o é, vence-o.

Auréola da vida

Alvíssaras aos fantasmas que te observam
Desde outro mundo onde te reservam
Todos os privilégios, num céu além
No Sacrilégio que te encontra em bem

Abram caminho, caminha o cavalo sozinho
O cavaleiro, o verdadeiro, adormeceu debaixo das nuvens
Onde te encontras, Ó Grande? Porque não vens?
A coroa não faz o príncipe!
A ave voa, que o vento a cite!
Que o alcance o brilho da estrela!
Que não cante a malvadez tão bela!

A mãe chora…
A sua princesa mora na torre mais incansável!
A chama acesa dança, consumindo-se, instável.
Rei e Reino procuram na natureza o sobrenatural,
Chamando a si aquele que fora de si se vale…

Está morto!
Está morto!
O Cavaleiro é só já corpo!
Está morto!
Está morto!
O Cavalo corre absorto!

O anjo e suas asas submetidos à convalescente fé,
Agora sua princesa voa como um anjo que não é.
Bela à luz da lua, una com o vento,
Cavaleiro à vista do sentimento.
Ao toque fez-se luz!
Ao toque fez-se luz!
E num beijo se traduz…

O Cavaleiro renasce!
O Cavaleiro renasce!
O Cavaleiro é o Príncipe, é imortal!
A coroa é a auréola!
A coroa é a auréola!
O Príncipe renasce na auréola da vida!

Abram caminho, o cavalo não vai sozinho
O cavaleiro, o verdadeiro, acordou acima das nuvens
Ó Grande para sempre aqui, entre nós!
O povo não quer a coroa, quer a voz!
A ave poisa, no ombro!
A estrela ressuscita o sol, do escombro!
Canta eternamente ao vento a nossa gente!



Eterno cavaleiro!
Feliz para sempre!
Inferno verdadeiro!
Aprendiz na mente!
Corre!
Corre cavaleiro!
Não morre!
Morre, Verdadeiro!

Ele sempre esteve vivo…
Ele sempre esteve morto…

quinta-feira, 29 de abril de 2004

Um ser

Encosta para traz o pescoço,
Adormece, lento, vento grosso.
Sou eu e quem mais havia de ser?

Um ser.

Regressa para os meus braços,
Na ampulheta os minutos de paixão escassos,
Vejo-te a ti, sem mais ninguém para ver.

Um ser.

Aprecia a natureza, tudo é uno,
Tu, a supra beleza, ávida Juno,
Completa todo o ser, o ser natura
Alma há só uma, e é pura.

Mais que um ser,
Não sei defini-lo…

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