quinta-feira, 17 de julho de 2003

inocência do instinto

O sangue que derramas,
do coração que não amas.
Um nome que não chamas.
O calor que emanas...

Evaporação, nuvens vermelhas.
O sol que se põe dispões as velhas telhas partidas
num caminho em que várias vidas se encontram e desencontram.
Apontam a timidez que não encaras quando a vês.
A fluidez de uma mente, a espontaneidade da verdade é diferente... e difícil.
Constantemente aquele que sente é atingido pelo míssil do desânimo.
Momentaneamente a pele ressente, de fé fingido, falso ânimo.
O tamanho das montanhas que encontras são miragens da fantasia,
porque tu és um gigante maior que a tua própria filosofia.
O dia-a-dia faz magia por ti mesmo.
Aprende e surpreende com o que a tua mente desprende,
e prende todo o saber. Só quem desprende a alma é que sabe realmente viver.

Sinto o tempo a passar entre mim e a vida sem pedir licença
A situação é uma constante ofensa permanente sentença
Brutalidade frontal, dádiva divina das ruas que exploro na vida
Informação atinge todos, mas apenas nalguns é percebida
Um simples gesto afogado na estética
Um sentimento expresso pela fonética
Valores desvanecem da mentalidade para a realidade
Uma realidade que não consegues resistir, e te perdes na vaidade
Porquê? Porque é que o tempo interfere?
Na relação que se perde e se auto fere…
Ontem o hoje parecia tão perfeito
Mas o hoje come o futuro e não me sinto satisfeito
Conceito que adquiro, poesia em que deliro
Já que não me mantenho a mim, mantenho o sonho que aspiro
Não há quem ajude a formar aquilo que queremos
Mas é pena porque são eles que formam aquilo que somos
Os olhos são a base dos sentimentos
Porque não consegues esconde-los em nenhum momento
Consegues controlalos, alteralos, mudalos?
Nada feito… precisas da insensibilidade dos calos
Que a vida provoca a quem a realidade invoca
Vive a tua vida, eu vivo a minha, mas as vidas não vivem sozinhas
Tu também não…
Por isso acompanha-me e vive comigo estas linhas

Leve vida que sinto no peso do ser
Que acumula como uma nuvem que não pára de crescer
Nuvens que são moldadas pelo vento
Como eu sou moldado pelo tempo
Depressa as que eram claras ficam escuras
O sol desaparece
Cai a água como mágoa pelas ruas
A rua merece
A água escoa e purifica
O sol é que ilumina o opaco que fica
O que não fica vai escorrendo pelo vidro do meu ser
Desde que não estale, toda a mágoa vai escorrer
E desaparecer
Exorcizada pela alma pecada
Como tudo é tudo, eu não sou nada
A trovoada mental atrofia o real...
Mas as nuvens vão e vêm isso é certo
Então coexiste porque ninguém vai estar por perto
Quando precisares, no lugar exacto
Por isso faz um pacto contigo
Fica sempre presente, és o teu maior amigo

Abaixo do silêncio das árvores perdido
Aves encarceradas no sóbrio prédio
O silêncio envolve-me no ruído
Perante o precipício em que caio neste tédio

É procurar uma folha e encontrar um caderno
É ter uma lâmpada e acender uma vela
É afogar-se na mente e arder no inferno
É perder-se no coração e encontrar-se numa cela

Acender um cigarro, pensar e adormecer
Acordar no escuro da vela que ardeu
Fazer o que nos dá prazer e lentamente morrer
Iluminar a face daquela que nos esqueceu

Perdoar o pecado daquela que é inocente
Aquela que nos mata na inocência do instinto
Janela que nos trata na ausência do presente
Chuva ácida que cai sobre mim mas que não sinto

(2002/2003)

terça-feira, 1 de julho de 2003

Ao som da tua alma

Encontro a tua alma na escuridão da mente
Mostro a lua calma, vã noção, sã, diferente

A vida dança,
o vício avança,
a esperança morre,
a vontade corre
não alcança
e apaga memórias lindas…muitas idas, muitas vindas
constantes, ao mundo que era antes,
que é agora, os olhos firmes, a alma chora,
desespera por uma mera amizade,
para que sentir a culpa quando sempre dissemos a verdade?

Para que sentir me só quando há tanta gente na cidade,
ao meu redor, tanta gente como eu à procura de um pouco de amor,
calor da chama que derrete,
cada um preocupado em sair do buraco em que se mete
mas só a vida já é um buraco em que caímos e berramos
o ar é vácuo, ninguém ouve os nossos lamentos,
ninguém sente os nossos sentimentos,
não há quem nos dê a mão nos momentos difíceis,
quando estamos constantemente ameaçados por mísseis,
o amor desvanece, a mente permanece, o stress aparece
e fode-nos mas eu apostei no amor desse no que desse.

Amo-te, juro! Daqui para o futuro, seja mole, ou duro, seguro ou inseguro, quero tê-lo contigo,
quero vivê-lo contigo, se tu estás comigo, acreditas no que digo? Acreditas no que sentes?
Quando não mentes, as nossas mentes estão ambas presentes, abstractas e indiferentes e eu…
Amo quem me rodeia…aquela que todos os dias vem cheia,
de amizade, e em mim semeia,
quando está longe, a saudade.

Aquela que não monta uma teia,
que passeia pela minha cabeça como a areia
escorre pelos meus dedos,
no caminho em que a esperança morre,
como os meus medos.

Estou possuído por sentimentos
que pensava que era eu a possuir.
Absorvido em pensamentos
ligados a ti que me fazem sorrir,
me ajuda a construir o que sou hoje,
o que serei amanhã. A verdade não me foge,
quando nenhuma rima é vã.

É a beleza da tua mente
Que dá vida a esse corpo teu
Trás ao auge a quem o tem presente
Leva à morte àquele que o perdeu

Não importa o papel mas o poema
Não importa o artista mas a arte
Quando vem o coração amor é o lema
Quando vem a mente o coração parte

Amo-te, juro! Daqui para o futuro, seja mole, ou duro, seguro ou inseguro, quero tê-lo contigo,
quero vivê-lo contigo, se tu estás comigo, acreditas no que digo? Acreditas no que sentes?

Encontro a tua alma na escuridão da mente
Mostro a lua calma, vã noção, sã, diferente

domingo, 1 de junho de 2003

"Aqui tens, o inocente revólver para a eternidade”."

Entra, no corredor da dor,
atmosfera densa.
Sacrifica-te pela tua crença,
tu nasceste para vencer.
Vou-te espetar esta caneta no coração, vai doer.
O sangue vai escorrer pelas ruas, das noites sem luas.
Vê o reflexo do brilho dos pirilampos na faca, já suas!
Vê o lado negro do que te ilumina,
aquilo que parece inofensivo por vezes é uma mina.
Não te fascina tanto assim, a chacina, o fim?
O início? Vício é o ofício, a sombra ganhou face…Aquele monstro sem classe,
sem pinta, sem estilo. E não só...…Perfuração sucinta no coração. Até dá dó.
Ouve o grilo que canta,
não me espanta, se desejasses neste momento,
ser como ele.

Vejo a tua aflição, à flor da pele.
A tinta que pintava amor,
agora tornou-se na arma sem identidade.

"Aqui tens, o inocente revólver para a eternidade”*

*o anjo mudo, Al Berto

sexta-feira, 9 de maio de 2003

Amo (uma pequena cena)

É tão fácil virar as costas a quem não gostas
E então mostras faces poluídas de sombra
Nem sequer pensas na palavra que proferes
Sabes que estás bem, digas o que disseres
Mas não sabes como me sinto agora
Estou morto por dentro, vivo por fora
Não existo, nem tenho memória de ter existido
Sou apenas uma história, um holograma construído
Pelo tempo, pelo pensamento, não sou nada
Não tenho estrada nem destino
Não tenho hino, nem voz
Não sou eu, como podemos ser “nós”
Não estou indeciso, é que não tenho por onde decidir
O meu paradeiro não é conciso, não tenho para onde ir
Não tenho motivo para sorrir
Nem lágrimas para chorar
Não posso voar
Mas não assento no chão
O sangue não corre, escorre, não tenho coração
Não sou realidade, não sou ilusão
Sou uma verdade que vagueia na cidade
Do pensamento daquele que diz existir amizade
Amizade não tenho, é apenas um favor
Apenas há atracção, não existe amor
Eu não existo
Não subsisto de palavras
São apenas histórias macabras
Sou apenas páginas rasgadas
Não tenho linhas
Tu caminhas para mim
Mas não chegas ao fim
Não tenho eternidade
Não tenho infinito
Não tenho visibilidade
Nem voz, apenas grito
Não escrevo, apenas devo um legado de pesares
De que a minha existência não passa de olhares
Não passa de mares
Que se misturam com ares
Vês bolhas de água
São a mágoa das profundezas da alma
Não existe calma
Não existe pressa
A vida não cessa, mas não sei onde começa
Agora confessa, achas mesmo que eu valho a pena?
Eu não é nada, é apenas… uma pequena cena

amo

Todas as pessoas são almas
Onde pára o coração?
Perdido pelas ruas
Tanto minhas como tuas
As luas não iluminam
Quando o teu brilho as denominam
Como tudo á face da terra
E tudo o que nela encerra
Fascínio, não domínio
Extermínio, do exterior
Onde pára o amor?
Perdido pelas ruas
Tanto minhas como tuas
Onde paramos nós
Onde pára a nossa voz
Para dar lugar à tua presença
Damos valor ao que iluminamos
E não à luz que possuímos
Dentro de nos mesmos
E onde paramos nós?
quando sem coração nem voz
Somos apenas solidão de almas
As palmas das mãos suam
Os ventos na parede recuam
E onde pára o vento que
Batia na tua face
E onde pára o sol que
Outrora te revestia de classe
Pinta, estilo
E onde pára o só?
E onde vem esse nó
Que provocas quando evocas
A tua beleza que
Até um cego a vê…

Estrito e Inscrito III

Insere-me no teu compromisso,
Eu não falo mais de amor, prometo,
Insere-me em ti, eu, concreto.
Não falo mais de amor, derreto!

Mas prefiro derreter, a perder consciência
De ti, experiência, de nós, inocência na voz…

Serei tu, juventude eterna! Inconformados!
Ventos irrisíveis de infantes reformados
Olhos e partículas invisíveis
Somos homologados, catalogados,
Criadores perfeitamente recortados.

Informativo que se aclame, são a voz do povo!
Quebrantes de fórmulas, quebra ovos,
Quebra-nozes,
Quebra vozes,
Quebra instantes em estantes,
Quebrando estantes em instantes.

Informa a tua vida, imparcial!
Renova a tua ida, superficial!
Recorta Ilíada e cola-a no teu caderno,
Nesta nova era escrevem dedos eternos,
Isola e recorta, e chama-los inferno!

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